Procurando meninas quentes

Falta de reciprocidade está matando meu relacionamento

2020.10.30 05:01 desabaf0 Falta de reciprocidade está matando meu relacionamento

Eu (H29) namoro uma menina (M30) há 5 anos.
No começo era tudo lindo, ela assumia um pouco a postura de passiva e, apesar de não curtir muito isso, aceitava e conduzia as coisas.
O problema é que essa 'passividade' vem se intensificando ao longo dos anos, e piorou muito nesse último ano que ela mudou pra umas ideias de feminismo liberal pra uma vertente mais radical.
Eu não sei se é paranóia minha, mas é difícil não ficar pensando que os grupos que ela fica (onde falam "macho escroto", "não faço nada pra agradar homem", "homem não presta") não afetem isso.
Eu sempre fui mais afetuoso e mais sexual, mas ultimamente tá se formando um abismo e eu tô começando a reparar isso até em coisas básicas como:
Ela diz que demonstra amor de outras formas (ex: sou muito bagunceiro, aí ela comprou um cesto organizador) mas são de formas mais funcionais do que demonstrações de afeto puro.
Além dessas coisas me fazerem me sentir um lixo e achar que tem algo errado comigo ou meu corpo, eu tô perdendo rapidamente o tesão de fazer essas coisas por ela pq não tem reciprocidade alguma e sinto que tô idolatrando uma deusa preguiçosa e egoísta do caralho que não faz milagre algum por mim.
Até um pedido de casamento que estava super empolgado em fazer, eu perdi completamente o tesão.
Pior que estamos no processo de comprar um imóvel e mudar de cidade juntos, dar um tempo agora seria muito merda e não é uma possibilidade.
Essa semana dei um ultimato de terapia de casal, pq essas coisas estão me corroendo e semana passada acabei surtando e quebrei a máquina de lavar no soco, foi horrível.
É isso, tô aberto a sugestões, percepções, acolhimento, qualquer coisa que possa jogar uma luz em como sair dessa situação...
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2020.07.17 02:21 Marack_ TUDO FOI FEITO PELO SOL (Conto)

O escritor despertou com lágrimas nos olhos. Qual teria sido o pesadelo a lhe perturbar? Tentou recordar por alguns segundos enquanto se revirava na cama, mas não tardou a desistir. Jamais lembraria. A sensação de acordar com esse nó na garganta era tão recorrente, porém a reminiscência dos sonhos ruins sempre lhe escapava a consciência. Tinha a intuição que revisitava o mesmo pesadelo todas as noites, mas não conseguia evocar na memória seus flagelos oníricos. Apesar da curiosidade, no fundo achava melhor assim. Que bem lhe faria recordar o amargor na alma? De apavorante, já basta a realidade – pensou, sentindo-se ridículo pelo clichê. Enxugou o rosto no lençol, inspirando profundamente na expectativa dos pulmões se impregnarem de coragem enquanto levantava da cama com a visão ainda embaciada pelo torpor do despertar. Assim que dera o primeiro passo a caminho do banheiro, enroscou o pé em um par de chinelos ali estrategicamente colocados pelo azar, ocasionando um torcilhão no tornozelo que lhe obrigou a acostar uma das mãos no peitoril da janela afim de evitar o nariz quebrado. A outra, aspirando equilíbrio, se agarrou ao blecaute das cortinas – outrora alvas, agora amareladas – permitindo o adentrar de uma faixa de luz externa pelo vidro exposto, o que inundou de vida a imundice de semanas sem limpeza do seu pequeno apartamento. De imediato – tal qual um reflexo reptiliano – sentiu aquele calafrio convulso subindo-lhe a espinha dorsal com a invasão indesejada. Bloqueou como pôde o facho de sol, desabando sobre o assoalho de madeira com a sensação de que o brilho celeste havia sugado dele qualquer resquício de energia. Sempre o tremor incontrolável contiguamente seguido de um aplastamento mental que a inconveniente recordação causava em seu âmago. Há quanto tempo atrás o medo – esse ditador interno inflexível, tomara conta de seu corpo pachorrento? Oito meses? Nove? Dez anos? Apesar da vividez das minudências em sua memória, tinha vaga lembrança da cronologia do passado após o incidente. Tudo parecia-lhe muito nebuloso nesse aspecto, embaralhado como se os dias fossem cartas desordenadas em uma trapaça do jogo da vida. Se falassem para ele que ocorreu há mais de década, faria mesmo sentido quanto contarem que tudo se passara ontem. Além do que, nessa altura pouco importava, a única convicção do escritor era que o trauma aparentava tão enraizado em seu cerne que duraria o resto de sua fugaz existência, tendo o culpado por seu destino já condenado sem direito à apelação: era Hélio, o deus do sol. O problema da sentença é quem cumpria a pena – encarcerado em um apartamento – era ele.
Ainda prostrado no chão, apertando o tornozelo na tentativa de serenar a algia, tendo o dorso apoiado na parede e o crânio pressionado com raiva contra a cortina – como se fosse plausível aplicá-la uma penitência por não ter violado a lei da ação e reação, permitindo a passagem da luz solar – reviveu em recordação o exato recorte em que sua vida seria marcada pelo pavor.

Era solstício de verão segundo a capa do periódico que folheava aquela manhã enquanto bebericava sua xícara de café, hábito que adquiriu desde que mudara para a cidade. Pra ele, o dia só desenrolava depois que virasse a página derradeira do jornal, geralmente coincidindo com o último gole – nessa altura já frio – da bebida matinal. Na reportagem sobre o solstício constava que a Terra, com seu hemisfério sul inclinado em direção ao sol, seria palco do dia mais longo do ano. Esse fato fez o escritor abrir um largo sorriso, feliz pela possibilidade de gastar mais tempo no parque escrevendo antes da lua encerrar o expediente e assumir o papel de protagonista do firmamento.
Abriu a janela para fumar um cigarro – costume recém incorporado ao seu ritual matutino – constatando que realmente era uma manhã demasiada cálida e abafada. O calor não era inquilino comum na região, surpreendendo-o com aquela sauna a céu aberto. Pitou o cigarro até a metade, apagando a brasa no fundo da xícara de café que estava na pia, jogou na mochila o que precisava para escrever e desceu as escadas a passos largos rumo a seu local de inspiração.
Chegando no parque esbaforido pela caminhada, tomou a iniciativa de comprar uma garrafa de água do único ambulante que encontrara sob aquele sol, percebendo que nem a caixa térmica do vendedor conseguia manter a temperatura agradável. – Que calor infernal! – Vociferou o sujeito, assustando o escritor – Parece castigo de Deus!
Pagou o homem e foi em busca de um lugar tranquilo para sentar. Ao se acomodar, apercebeu que não avistara uma única nuvem sequer no céu. O resultado do mormaço implacável era que haviam somente alguns poucos aventureiros no gramado do parque, malgrado esses que lá ainda permaneciam já darem sinais que não tardariam a serem vencidos pelo astro rei. Ele – apesar do suor descendo pelas têmporas, pingando na camisa de linho bege – começava a achar aquele calor propício o suficiente para tirá-lo da inércia criativa e forçá-lo a se concentrar no capítulo final da história que estava escrevendo. Talvez fosse isso que precisava pra sua imaginação aflorar, um delírio causado pelo sol – pensou e sorriu com a imagem que formara na mente enquanto enxugava a transpiração na testa. Essa saga se arrastava por semanas, já havia escrito inúmeros desfechos pro livro, nenhum lhe agradava a ponto de ser coroado. Lembrava que na semana que começou a redigir a trama, rabiscou o arremate perfeito em um dos cadernos de bolso que usava sempre para registrar suas divagações, porém no desenrolar dos capítulos deduziu que sua conclusão careceria pequenos ajustes. Quando enfim chegou o momento de botar o epílogo no papel, releu o rabisco anotado e pareceu-lhe exageradamente piegas. A trama havia tomado outro rumo, não poderia terminar a história com tal desenredo, mas de que maneira concluiria? Tentou diversas proposições, os dias foram passando, nada parecia estar à altura dos capítulos pregressos, até que... Será? Uma centelha de inspiração brilhou durante um dos sonhos naquela noite. Acordara extasiado e lá estava ele no parque cercado de seus cadernos, jurando para si que só regressaria para o apartamento com o ponto final que encerraria o hiato criativo.
Lá pelas tantas, debruçado na grama e em pensamentos, já vislumbrando o êxito enquanto batia intrepidamente nas teclas que davam formas terminativas a sua obra, lhe ocorreu a sensação que o sol parecia estático no céu. Estava ali há quanto tempo? Pelo julgar de sua lembrança, no mínimo quatro horas desde que começou a escrever, o suficiente para o calor dar uma trégua, porém a impressão era que ao invés de esmaecer, a temperatura parecia intensificar. Quando constatou isso, sentiu sede. Abriu a garrafa de água, tomou o primeiro gole, cuspindo o resto que ficara na boca. O líquido estava a ponto de virar gasoso de tão férvido. Despejou o que sobrou na garrafa em sua mão e levou à nuca. Sentia seu pescoço ardendo em brasa, quem sabe a água, ainda que quente, ajudasse a aplacar o calor. Fitou o antebraço com olhar de espanto. Seriam bolhas de queimadura na sua pele? Piscou, mantendo as pálpebras cerradas por alguns instantes. Ao abrir, haviam sumido. Estava delirando? Muito sol na fronte? Obviamente não se sentia bem. Uma ânsia subiu pela sua garganta. Olhou para cima, como se negociasse um armistício com a estrela, porém a única coisa que ganhou com essa súplica fora um raio de sol lhe cegando integralmente a vista. Ao virar a cabeça na tentativa de escapar da claridade ofuscante, foi cúmplice da cena que ficaria cravada nas entranhas e ranhuras do seu cérebro.
A tragédia durou uma fração de segundos, mas para o escritor, o tempo – como já havia lido que ocorria em momentos assim – desacelerou, passando em câmera lenta, quadro por quadro, eternidade comprimida em um instante. Sua visão ainda debilitada pelo clarão estreitou sobre um homem que, cambaleante, dava sinais de estar prestes à desmaiar. Percebeu o contorno da faca na mão do sujeito. O aço da lâmina refletindo o brilho solar enquanto o indivíduo – esvaído de consciência, desfalecia. Caiu com a faca atravessada em seu peito. O sangue tingindo de vermelho a toalha xadrez sob a cesta de piquenine enquanto uma criança que estivera sentada ali todo o tempo soltava um grito choroso que ecoaria perpetuamente pelo silêncio do seu apartamento.
No periódico do dia seguinte deixado sobre o capacho da porta do escritor constava na matéria de capa que, segundo o plantonista presente no local, o falecido sentiu uma síncope devido à insolação, ocasionando o trágico acidente. Na notícia detalhava também a informação que pai e filha estavam comemorando o aniversário atrasado de oito anos da menina. Na última linha citava ainda um cidadão que presenciando o infortúnio, precisou ser internado para observação, pois – atônito – repetia copiosamente que a culpa era do sol.

O escritor enfim levantou-se do chão, percebendo o molde que os pés deixaram na poeira do assoalho. Ficara tempo demais chafurdando as memórias do trauma, o suficiente para embotar a sua constante frágil disposição de seguir com o dia. Sentiu que a manhã passava de maneira arrastada. Observou também que sua existência – assim como a manhã, estava se arrastando. Não via mais razão para continuar seguindo nesse plano. A impressão que tinha é que aquele incidente abriu a fechadura de uma caixa de pandora, liberando inúmeros demônios que estavam espreitando em seu subconsciente. Buscou ajuda médica, tentou diversos medicamentos – legais e ilegais; frequentara várias terapias – baseadas em evidências e alternativas, mas nada parecia surtir efeito duradouro. Algumas tentativas até causavam uma leve melhora no início, mas não tardava a voltar para o fundo do limbo de onde parecia tropegamente estar saindo.
Ligou a televisão procurando uma distração para acelerar a passagem do dia, trocando os canais sem conseguir focar sua atenção em nenhum. Havia perdido essa capacidade também. Foco era um conceito distante, meramente teórico. Mediar a briga entre seu id e superego lhe esgotava o vigor, não restando forças para se concentrar em qualquer outra atividade. A vida agora se resumia em projetos inacabados. Prova cabal disso era seu livro inconcluso empoeirando em alguma gaveta, pendendo ainda um final. Nunca mais fora capaz de escrever de maneira consistente. Nos momentos de rara inspiração, tentava algumas linhas tortas aqui, outros parágrafos desconexos ali, nada que conseguisse dar continuidade. O destino final dessas folhas sempre era o lixo. Dessa maneira o desfecho para sua obra nunca pareceu tão distante.
Deixou a tevê ligada em um documentário monótono aonde o narrador com a voz arrastada divagava sobre a formação dos planetas e foi pra cozinha requentar o resto do almoço que sobrara de ontem, uma gororoba de tudo que havia encontrado na geladeira. Satisfeito, largou o prato sujo na mesa, serviu-se de uma taça de vinho e deitou no sofá para ler. Dormiu na segunda página.

Durante o sono, notou a presença de outro alguém em seu apartamento. A sombra no canto da sala se assemelhava a silhueta de um homem franzino, lembrando seu pai há muitos anos falecido, mas estava absconso demais para ter certeza. – Quem está aí? – sussurrou apavorado com aquela intromissão a sua rotineira solidão – Me deixe em paz, figura inoportuna. Apesar da tragédia em que me encontro, não sou Hamlet para desejar visitas paternas do além.
O contorno – desacatando sua ordem – foi aos poucos tomando forma enquanto se aproximava, até que ficara nítido o suficiente para ser reconhecido. Como se tivesse frente à um espelho, o escritor se viu prostrado diante de si. Estava em mais um de seus pesadelos. Lúcido da situação que se desenrolava, procurou despertar, mas o esforço foi em vão.
– Eu sou você. – Proferiu sua persona onírica – Nossa única distinção é que venho despido dos medos e traumas que te consomem. Esses demônios já domaram suficiente seu espírito, lhe privando o viver! Após incontáveis sonhos hostis, hoje você encontrará a redenção. Quando despertar desse sono, terá superado para sempre suas inúmeras psicoses arraigadas!
Imediatamente após escutar a sentença, como se nela constasse as palavras que vocalizadas fossem capazes de evocar uma metamorfose, o escritor experienciou-se trocando de matéria com seu clone morfeico, se sentindo totalmente liberto das agruras que lhe aprisionavam. Após cumprida a profecia, seu antigo eu expirou vanescendo no ar, deixando ele absorto com a experiência quimérica.
Querendo pôr à prova sua cura, abriu a porta do apartamento e partiu em disparada para o parque em que tudo ocorrera. A esfera celeste brilhava pujante no horizonte, cintilando sobre as pessoas dispersas no gramado. Estava são novamente. Ao invés de tremores, sentiu-se revigorado com a luz iluminando o mundo. Tudo parecia imbuído de energia. Viu a vida seguindo seu fluxo e o sol tendo papel crucial na ordem cósmica. Lembrou de imediato do documentário na televisão aquela manhã que falava sobre como os elementos químicos naturais eram forjados no núcleo das estrelas, e assim aparentou ter um instante epifânico aonde compreendia a origem do universo em que estava inserido, clareando na consciência a inspiração para o final do seu livro. – Eureca! É isso! O desfecho transcendente que tanto perscrutei nessa peregrinação pelos confins da minha alma! – Chorou, e ao sentir o sal da primeira gota escorrendo pelos lábios, acordou.
O escritor despertou com lágrimas nos olhos. Qual teria sido o pesadelo a lhe perturbar?
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2019.05.30 22:09 KoopaTrope Sonhos lúcidos

- É sua tarefa, Luís, não minha.

- Eu sei, só estou pedindo ajuda. Você não pode me explicar?

O escritório inteiro olhava para os dois, mas a colega com quem ele falava nem tirava os olhos da tela para respondê-lo.

- Não. É responsabilidade sua.

Ele ficou ali, de pé, constrangido. A mulher acrescentou:

- Pôr calças também seria uma boa ideia.

Luís percebeu que estava pelado abaixo da cintura. Cobriu suas partes com as mãos e, envergonhado, voltou ao seu lugar. Sentou-se e fingiu que estava tudo normal. Perguntou-se se Mara havia visto aquela humilhação toda.

Tentou trabalhar, mas raciocinar estava difícil, então abriu o Outlook e digitou:


“Para: Suporte Técnico Assunto: Café Mensagem: 

Olá, Poderiam, por favor, me trazer uma xícara de café? Aguardo sua resposta. Atenciosamente, Luís Monteiro” 


Assim que enviou o e-mail, Mara veio ao seu cubículo conversar. Ela estava de saia rosa e uma boa parte da coxa de fora. Luís afundou-se na cadeira tentando esconder sua nudez debaixo da mesa.

- Precisa de ajuda? - A voz, assim como o rosto, era da sua ex, mas aquela era a Mara mesmo assim.

- Preciso.

Ele tentou se lembrar aonde estava guardado, na rede, o arquivo que precisava preencher. Abria diversas pastas mas não o achava. Mara mudava o peso de uma perna para a outra, impaciente.

Ele clicou duas vezes em um arquivo e um emulador de Super Nintendo se abriu, com as palavras “STAR WARS” em amarelo num fundo preto. A versão 16-bit do tema do filme tocando alto.

- Não sei o que é isso - ele mentiu enquanto tentava abaixar o volume da caixa de som, sem sucesso. - Nunca instalei isso. Não é meu.

Diversos colegas se aproximaram para olhar sua tela.

- Aqui está o café! - gritou o cara do suporte técnico, tentando ser ouvido por cima da música.

Luís tentava fechar a janela do emulador, mas não conseguia. O logo amarelo se distanciava da tela e um texto o seguia lentamente pelo espaço. A música continuava jorrando. O cursor estava em cima do “X”, mas quando ele clicava nada acontecia. No desespero, acertou com o cotovelo a xícara que havia surgido em cima da mesa. Mara gritou quando o café pelando caiu na sua perna.

- Desculpa! - Luís disse se levantando.

Os olhares dos colegas o lembraram que ele estava pelado. Mara chorava. Ela tirou a mão da coxa revelando uma ferida em carne viva.

- Desculpa! - Ele implorou.

A menina olhou para a nudez de Luís. Sua expressão passou de dor para surpresa, e logo para a de desespero.

- Na sua barriga também! - Ela disse, apontando para o jovem.

Ele olhou para baixo.

Sua barriga estava tostada. Bolhas cresciam e estouravam, fazendo sangue e pus escorrerem pelas suas pernas.


Tudo aquilo desapareceu, exceto pela música, e Luís viu-se em seu quarto, deitado na cama. O lap top estava quente em sua barriga ainda com Super Star Wars ligado. Fechou a janela do jogo assim que entendeu o que estava acontecendo. Ah, silêncio!

Havia chegado tarde do trabalho, descongelado e comido uma lasanha e deitado no escuro para jogar um pouco e relaxar. Nem percebeu quando caiu no sono. Devia ter esbarrado em alguma coisa e o lap top saiu do modo inativo, o acordando.

“Que merda de sonho”, pensou. Ter pesadelos já era ruim, mas sonhar que estava trabalhando era horrível. Chegara do serviço e pegara no sono por oito horas, só para trabalhar lá também. E agora já tinha que voltar pro escritório. Era como se fizesse três turnos emendados. O pior é que esses sonhos estavam cada vez mais frequentes.

Pensou sobre o pesadelo que teve. Aliviava-se ao lembrar dos detalhes e se assegurar de que nenhum deles tinha acontecido de verdade. Riu da ideia de pedir um café por e-mail para o suporte técnico. “Acho que vou fazer isso hoje”, brincou para si mesmo, começando a ficar grogue de sono novamente. Abriu os olhos com urgência e checou as horas no celular. Faltavam quinze minutos pra ter que se levantar.

Quinze minutos era o pior. Muito pouco para voltar a dormir mas muito tempo para desperdiçar se levantando. Já que estava com o computador na cama, abriu uma janela do Reddit e começou a navegar.

No meio de memes e gifs de cachorros, viu uma postagem que, se houvesse visto em outro dia, teria ignorado, mas hoje lhe chamara a atenção. Era um texto sobre sonhos lúcidos. Ele já havia ouvido falar naquilo, sabia que tinha a ver com controlar seus sonhos. “Num pesadelo como o de hoje isso seria muito útil”, pensou.


Ao meio-dia, enquanto almoçava, Luís leu o artigo salvo no celular.

O conceito era o que imaginava: controlar a si mesmo e tudo ao seu redor nos sonhos. A maneira como se alcançava isso era percebendo que estava sonhando sem acordar. Assim a realidade era sua para ser modelada. “Eu poderia fazer o que quisesse”, pensou. “Poderia ser um jedi, ter uma Ferrari, comer a Megan Fox…”.

Leu atentamente a segunda parte do texto, que ensinava como atingir a lucidez nos sonhos.

A primeira dica era ter um diário de sonhos, que deveria ficar na cabeceira da cama, tanto para que fosse possível anotá-lo antes de esquecê-lo, quanto para que de noite a pessoa caísse no sono perto do caderno. Isso faria com que ela inconscientemente se preparasse para sonhar, aumentando suas chances de perceber que sonhava.

Aquilo pareceu bobagem para Luís. Esse papo de inconsciente não era sua praia, mas o próximo ponto parecia mais racional e o fascinava.

Tratava-se de outro tipo de truque para perceber que se estava sonhando. A grande sacada era se viciar nesses truques, de maneira com que a pessoa começasse a testar o seu redor mesmo sem pensar a respeito, até que em algum momento acabaria fazendo aquilo sem querer em um sonho, e então perceberia que estava dormindo.

Dois desses truques fizeram muito sentido para Luís. Um era olhar a palma de sua mão o tempo todo, de cinco em cinco minutos, se possível, todos os dias, até que começasse a fazê-lo sem pensar. Acabaria conhecendo a imagem da sua palma, e quando, por vício, fizesse aquilo em um sonho, reconheceria que aquela não era exatamente a sua mão.

Outro truque que Luís achou que podia funcionar com ele era se viciar em apertar todo interruptor de luz que visse. Teria que, toda vez que entrasse em uma sala sozinho, procurar um interruptor e apertá-lo. Segundo a postagem, assim como a palma da mão, a mudança da luz em uma sala era difícil de ser reproduzida perfeitamente por nosso cérebro.

Se ele era influenciável o suficiente para frequentemente sonhar que estava trabalhando, não via porque não conseguiria condicionar-se a testar uma dessas coisas num sonho.


- Tá tudo bem? - Perguntou Pedro, ao flagrar Luís, de novo, olhando para a palma de sua mão.

- Sim, tudo certo.

Pedro sentava ao seu lado e provavelmente o veria fazendo aquilo diversas vezes ao dia, então Luís abriu o jogo:

- Eu só estou fazendo um teste. É um truque para se ter sonhos lúcidos.

O colega franziu a testa.

- Isso é quando você tem um sonho super realista, tipo A Origem, né?

- Mais ou menos. - Ele respondeu, sem saco para explicar, e com um pouco de vergonha também.

Após os dois ficarem em silêncio por um instante, Luís checou novamente sua palma. Pedro balançou a cabeça negativamente e balbuciou:

- Coisa de louco.

Luís ouviu esse tipo de comentário diversas vezes nos dias seguintes. Mesmo assim, sua força de vontade o fez continuar. De cinco em cinco minutos, as vezes ainda mais frequentemente, ele checava sua palma, não se importando com quem via. Começou a fazê-lo sem pensar, até na frente da Mara.

Sempre que entrava em um cômodo novo e se via sozinho, procurava o interruptor e o apertava, prestando atenção em como a luz se apagava e se acendia. Não importava se estava em casa, no escritório ou qualquer outro lugar. Chegou a apagar a luz sem querer na cozinha do escritório enquanto umas dez pessoas almoçavam. Apenas pediu desculpas e acendeu a lâmpada, aproveitando para reparar bem em como isso mudava o ambiente.

Até a dica do diário de sonhos ele seguiu. No começo sentiu-se um pouco ridículo escrevendo seus sonhos, mas acabou gostando de ter um jornalzinho e poder reler aqueles sonhos bizarros que sumiam de sua cabeça alguns minutos após acordar.

Após dois meses ele havia quase desistido daquilo tudo. Quando apertava um interruptor ou olhava para a palma de sua mão se perguntava por que estava fazendo aquela idiotice, mas então imaginava-se voando num sonho, e sendo um rei por oito horas, todos os dias, e insistia no hábito.


Um dia Luís estava com a Mara na casa dela. A aparência era da casa de sua avó, mas era a da Mara mesmo assim. Sentados no sofá, os dois conversavam, e a menina o tocava quando falava, e ria toda vez que ele fazia um comentário engraçado. “Isso está indo muito bem”, ele pensava, e pela primeira vez perto dela falava com confiança.

- Sabia que seu nome é de uma personagem do Star Wars?

- É mesmo? - Ela arregalou os olhos, muito interessada.

- Sim. Mara Jade. E o seu olho é verde, igual jade…

- Uau! Que coincidência!

- É! Eu pensei nisso assim que me apresentaram você, quando eu entrei na empresa.

- Eu tenho uma coisa do Star Wars aqui.

A moça se levantou e se trancou no closet. Depois de alguns instantes saiu vestindo uma longa tanga vinho que cobria a parte da frente e de trás de sua cintura, aberta nas laterais, um biquini metálico, pulseiras douradas e um colar apertado, do mesmo metal, do qual saia uma corrente. Seu cabelo trançado caia decorado por presilhas amarelas.

- Você gosta? - Ela o provocou.

- Muito - Respondeu, finalmente ficando nervoso.

- Vem.

Mara saiu da sala em direção ao seu quarto e Luís a seguiu. Entre os dois cômodos havia um corredor, e nele, sem pensar, o jovem olhou para a sua mão.

Havia algo de errado. Tentava reconhecer as linhas mas não conseguia. Elas se embaralhavam na sua palma. Apenas quando Luís focava no lugar em que uma linha deveria estar é que ela aparecia corretamente.

“Isso não está certo”, ele pensou.

- Vem, Luís.

Ele podia ver Mara na cama, olhando para ele do quarto. Teve vontade de esquecer a sua mão e ir até ela, mas algo dentro de si dizia que aquilo era muito importante, e que, muito tempo atrás, em um tempo que ele nem se lembrava mais, queria muito que aquilo acontecesse.

“Tinha a ver com perceber se eu estava sonhando”, lembrou. Aquele pensamento o fez procurar por um interruptor de luz.

Do lado da porta do quarto onde Mara estava havia um grande interruptor amarelo. Luís o apertou e nada aconteceu.

“Estranho”, pensou. A lâmpada estava apagada, mas o corredor continuava iluminado. Apertou o botão novamente e viu a luz surgir dentro da lâmpada, um instante mais devagar do que deveria, mas a iluminação ao seu redor continuava a mesma.

Uma realização veio de repente: “estou sonhando”.

Agora ele via a diferença. Era como se tudo existisse de maneira fraca, exceto aquilo em que ele prestava atenção. Olhava para Mara e a única coisa que existia era ela. Olhava para o interruptor e Mara deixava de existir, e após alguns segundos, quando relaxava, coisas ao redor começavam a aparecer em segundo plano, desfocadas.

“O que eu quiser vai existir. Isso é tudo minha imaginação, só preciso aprender a controlá-la”. Olhou para a mulher na cama e concentrou-se, imaginando-a levantando o braço. Ela o levantou. Como se uma chave tivesse sido virada no cérebro de Luís, o sonho parou de acontecer sozinho, e ele se viu no poder.

Ao ganhar o controle, tudo ao seu redor desapareceu. Ele estava no meio do nada.

Lembrou-se do artigo que leu. Haviam diferentes níveis de domínio dos sonhos, e no mais forte apenas o que a pessoa imaginasse existiria, sem nada em segundo plano sendo projetado pelo inconsciente. “Parece que vim direto pro nível mais avançado”, pensou.

Imaginou a Mara numa cama a sua frente e o pensamento se materializou na hora. Ele se aproximou. Agora tudo o que existia era ele, a cama e Mara. Relaxou por um instante e tudo desapareceu. Ele estava no meio do nada de novo. Esforçou-se para fazer Mara e a cama reaparecerem, e conseguiu, mas a mulher não fazia nada, apenas estava lá, da maneira em que ele a imaginava.

Tinha que concentrar-se para que ela continuasse existindo. Suas curvas, seu olhar, seu sorriso, nada daquilo existia mais sozinho, como antes, tudo dependia dele imaginar.

“Isso não é muito diferente de fantasiar acordado”, pensou. Tocou a pele da mulher. Não sentiu nada. Imaginou a textura e a temperatura, e de certa maneira a sentiu. “Isso não é um sonho mais. É só imaginação.” A decepção fez com que ele se desconcentrasse e tudo desapareceu novamente. Dessa vez ele imaginou a Megan Fox na sua frente. Tocou-a e o resultado foi o mesmo: teve que imaginar a sensação. “Isso é ridículo. Eu já me imaginei tocando essas duas um milhão de vezes. No sonho deveria parecer real!”.


O sonho foi interrompido pelos berros de um despertador. Xingando, Luís o desligou. Por instinto ele abriu seu diário de sonhos na página daquele dia, destampou a caneta Bic e olhou para a folha em branco por um segundo. Fechou a caderneta com a caneta no meio e a atirou para o outro canto do quarto. “Que merda”, ele pensou, frustrado. Não anotou mais seus sonhos.

Naquele dia o jovem lutou contra o vício e não olhou nenhuma vez para a palma de sua mão. Quando via um interruptor tinha vontade de xingá-lo. Sentia-se enganado e traído.

Parte de si ainda negava que aquilo realmente acontecera. Enquanto trabalhava, fechou os olhos e imaginou-se tocando a Megan Fox pelada. A sensação era exatamente igual à do sonho. O que ele havia visto e sentido enquanto sonhava não era nem um pingo mais real do que sua imaginação era normalmente, e ele não se considerava alguém com uma imaginação super fértil. Todas aquelas semanas de treino, o ridículo que passara na frente das pessoas ao olhar para sua mão o tempo todo, tudo aquilo para nada. Para um sonho de merda que nem podia ser chamado de sonho.

- Tá dormindo? - Perguntou Pedro, voltando do banheiro.

Luís abriu os olhos e fingiu trabalhar.

- Ou tá sonhando que nem A Origem? - Pedro riu alto com seu comentário, sentou-se e abriu seu lap top com um sorriso no rosto.


Ao chegar do trabalho, Luís comeu um miojo, colocou o pijama e tomou um remédio para dormir, que gostava de ter em casa para uma emergência. Deixou a louça acumular mais um dia. Ainda não eram nem 8 horas, mas ele apagou a luz do quarto e se deitou.

Não sabia exatamente aonde queria chegar, mas precisava sonhar. Ele se perguntou se “acordaria” outra vez dentro do sonho. Se acontecesse, talvez ele pudesse fazer tudo sentir mais real do que na noite passada. Seria bom. Mas ele torcia para que nada disso acontecesse. Ele queria ter um sonho normal, sem lucidez nenhuma. Um sonho que o enganasse até alguns segundos após acordar.

Um facho de luz azulada entrava pela abertura por entre as cortinas e se estampava na parede. Ficava mais forte e esbranquiçado quando um carro passava na rua. Luís assistiu aquilo por uma meia hora.

Ele não percebeu a transição, mas se encontrava em lugar nenhum, no meio do nada. Lá não era escuro, mas também não era claro. Simplesmente não era nada.

Lembrou-se de uma postagem que leu no Reddit, de um cara tentando entender como é possível que cegos simplesmente não enxergam, ao invés de ver tudo escuro. Alguém havia explicado pedindo para que o OP fechasse os olhos. “Tudo o que você vê é preto, certo?”, dizia o comentário. “E o que você vê atrás de si? Tudo escuro também? Não, você simplesmente não enxerga nada atrás de si. Não é preto nem branco, simplesmente não existe”. Assim era o nada ao redor de Luís.

Ele já estivera ali antes. Na noite anterior, assim que começou a sonhar lucidamente e tudo ao seu redor desapareceu, mas dessa vez o jovem soube que estava sonhando no instante em que adormecera e aparecera ali. Nem tivera a chance de ter um sonho não lúcido. “Merda. Será que vai ser assim a noite inteira?”

Resolveu pelo menos tentar se divertir. Lembrou-se do comentário do Pedro sobre Inception e tentou criar uma cidade ao seu redor, como no filme. Imaginou uma rua com calçadas. Não era ultra-realista como ele esperava que seus sonhos lúcidos seriam, era apenas tão real quanto sua imaginação. Ele se perguntou se sempre sonhara assim, tudo meio fora de foco, meio descolorido.

Concentrou-se no chão e, após alguns segundos, conseguiu detalhá-lo bem. O asfalto brilhava e a calçada era feita de paralelepípedos, todos perfeitos e do mesmo tamanho. Grama crescia aqui ou ali, por entre as pedras.

Imaginou um prédio ao seu lado, uma torre de cimento e vidro. Decorou-o com um portão de ferro, alguns degraus levando até a porta de entrada e uma portaria vazia.

Percebeu que, ao imaginar o prédio, havia deixado de lado o chão, que desaparecera. Imaginou-o outra vez, agora se esforçando para manter as duas coisas na cabeça ao mesmo tempo.

Conseguiu fazer ambas as coisas existirem juntas, mas não pôde mantê-las tão detalhadas quanto antes. Se o asfalto brilhava e grama crescia na calçada, o prédio era apenas uma torre cinza sem graça. Se o prédio tinha janelas e uma fachada bonita, o chão tornava-se apenas uma sombra aos seus pés.

“Talvez se eu praticar bastante eu consiga”, pensou, mas não queria treinar aquilo. Não era divertido. Qual era o ponto daquilo tudo? Ele só queria voltar a sonhar normalmente e deixar esses sonhos lúcidos pra trás.

Esqueceu o pedacinho de cidade ao seu redor. Tudo desapareceu e ele voltou ao nada.

Quis relaxar como se tentasse dormir, mas não tinha sono. Claro, já estava dormindo. Sua mente estava relaxada mas em alerta, como quando ele tomava café no escritório mas continuava com preguiça de trabalhar.

Ficou apenas pensando na vida, esperando as horas passarem. Não havia maneira de checá-las. Achava que haviam se passado duas horas, pelo menos. Três talvez. Esperou mais.

Considerou que teria que esperar oito horas até o despertador acordá-lo. Ou mais, porque havia dormido cedo. “Pensei que o tempo nos sonhos passasse mais rápido ou algo assim. Merda de filme”.

Talvez em um sonho de verdade o tempo parecesse passar de maneira diferente, mas ele podia chamar aquilo de sonho? Só estava com sua mente acordada enquanto dormia, nada mais.

Após o que pareciam ter sido realmente oito horas, acordou. Seu corpo estava descansado, mas sua mente não. Era difícil se concentrar em qualquer coisa.

No trabalho ele não rendeu nada e em casa menos ainda. Deixou as tarefas domésticas para o dia seguinte de novo. A louça continuou acumulando e ele sabia que amanhã teria que usar uma camisa amassada, porque não tinha energia para passar.

Faziam dias que ele não falava com seus amigos e família, mas ignorou as ligações de sua mãe, apenas mandou uma mensagem de “está tudo bem, amanhã nos falamos”. Não queria conversar com ninguém naquele estado.

Perto da meia-noite se deitou. Mesmo cansado, a ideia de dormir e ter um sonho daqueles outra vez lhe parecia terrível. Passou a noite inteira jogando Dwarf Fortress e tomando Coca-Cola.


- Meu Deus, você está um caco! - Disse Pedro.

- Não consegui dormir.

Luís olhava para a tela do computador, mas não raciocinava. Os e-mails que chegavam pareciam estar em grego e as conversas ao seu redor não faziam sentido. Não comentou nada nas reuniões em que participou. Se alguém lhe pedisse para resumi-las ele não teria ideia do que foi tratado.

Era como se tivesse ficado mais de 48 horas acordado, já que duas noites atrás, quando havia dormido, não descansara sua mente. No fim do expediente esse número subiu para 56 horas.

As cores estavam diferentes e as palavras não faziam sentido. “Isso já é considerado alucinar? Acho que sim”. Quando olhava para o computador por muito tempo e depois para uma parede branca, via a tela estampada em negativo, desaparecendo aos poucos e aparecendo mais forte cada vez que piscava os olhos.


Naquela noite ele não teve escolha, dormiu. Nem se lembrava de caminhar até a cama e se jogar, mas percebeu quando apareceu naquele nada que eram seus sonhos agora. Lúcido outra vez. Foi quando teve a realização de que talvez nunca mais sonhasse normalmente, e pra sempre estaria “acordado” ao dormir. Talvez ao “virar a chave” no seu cérebro ele tivesse quebrado sua habilidade de sonhar para sempre.

O desespero bateu. Oito horas por dia daquele tédio e solidão para o resto de sua vida seria tortura. Tentou se entreter de alguma maneira.

Criou outro ser humano no sonho e tentou dar-lhe uma personalidade, mas ele só fazia o que Luís imaginasse. Voltou a tentar criar sua cidade. Talvez se fizesse uma bem grande teria como se entreter nela. Dessa vez não tentou detalhá-la demais e preocupou-se apenas em criar o maior número de objetos possíveis, sem fazer os outros desaparecerem. O esforço mental era enorme.

Foi quando percebeu que isso só o esgotaria mais, e seus dias seriam cada vez piores.

Sentou-se no nada e tentou descansar. Teve a ideia de meditar. Não sabia muito bem como fazer aquilo mas sabia que tinha que tentar não pensar em nada. Talvez conseguisse descansar seu cérebro um pouco.

As horas passaram devagar e dolorosamente. Em nenhum momento ele sentiu que ficou menos lúcido, mas quando acordou Luís percebeu que a meditação o ajudou. Continuava exausto, mas sentia-se como se tivesse tirado uma soneca.

Nas noites seguintes ele continuou meditando, tentando usar sua cabeça o mínimo possível. Durante o dia ele lia sobre a prática e religiões orientais, o que ele teria achado ridículo alguns meses atrás. Seus dias voltaram a render, tanto no trabalho quanto em casa, e ele se sentia relativamente descansado. Voltou a comer bem, lavou a louça, ligou para a sua mãe e voltou a sair com seus amigos.

Seus dias eram bons, o problema eram as noites. Oito horas sem fazer nada além de meditar, todos os dias, sozinho, sabendo que a alternativa era sofrer de cansaço durante o dia. Houveram noites em que ele se rebelou. Imaginou-se em cenas de ação, duelando de espadas ou pilotando uma X-Wing. Outra noite passou o Episódio IV inteiro na sua cabeça, como se assistisse ao filme. O resultado dessas noites rebeldes era sempre o mesmo: no dia seguinte era como se não tivesse descansado, e ele prometia para si mesmo que naquela noite não cometeria o mesmo erro.

Após alguns meses ele estava pró em meditar. Já tinha até uma rotina. Criava uma versão simplificada de seu quarto, mas todo “zen”, com um bonsai de pinheiro-negro e um daqueles jardins de areia japoneses, uma janela que sempre dava para um céu azul por onde entrava seu cheiro favorito, o de grama cortada, e silêncio completo. Depois se sentava num puff super confortável, fechava os olhos e tentava não pensar em nada até acordar - o que fazia o quarto desaparecer, mas o importante era aquele relaxamento inicial. Ficou tão bom nisso que não gastava nem cinco minutos para criar o quarto, e conseguia descansar o resto da noite.

Ainda achava todo o papo espiritual das religiões orientais pura baboseira, mas aprender a não pensar em quase nada havia salvado sua vida.


Uma noite ele sentou-se naquele puff, fechou os olhos e prestou atenção em seus pensamentos. “Ainda tenho oito horas disso”, “não vou conseguir me concentrar hoje”, “amanhã tenho muita coisa pra resolver no trabalho”, “toda noite será assim, pro resto da vida?”. Como sempre, no começo seus pensamentos abundavam, mas Luís foi vencendo-os um a um, até que conseguiu manter o foco apenas em uma coisa: um ponto imaginário a cerca de dois metros à sua frente. Toda a sua energia mental estava focada naquilo. Algumas horas se passaram e então, como que num passe de mágica, ele esqueceu de prestar atenção no ponto.

Não percebeu quando passou a não pensar em nada, como havia lido que era possível, mas sempre duvidara. Sua autoconsciência naquele momento era como o nada lá fora: nem escura, nem clara, apenas não existia.

- Oi Luís.

A voz era grossa, mas feminina. Luís abriu os olhos assustado. Estava no meio daquele nada que já conhecia bem. Olhou ao redor, procurando alguém.

“Devo ter imaginado isso” pensou, frustrado de ter que começar a meditação de novo.

Imaginou o quarto. O chão, o puff, o bonsai, a porta, a janela, dessa vez até colocou um aquário em um canto porque estava sentindo-se criativo. Sentou-se no lugar de sempre, sentindo o cheiro de grama cortada.

Alguém bateu na porta.

Luís levantou-se de supetão. “Que porra é essa?”. Ele olhou para a porta assustado, tentando perceber se realmente tinha alguém do outro lado. Imaginou que lá fora o sol brilhava. Debaixo da porta a luz entrava em três fachos, como se houvessem dois pés parados do lado de fora. Certamente ele não estava imaginando aquilo de propósito.

Criou um olho mágico na porta e espiou. Do outro lado havia uma pessoa com longos cabelos pretos.

- Deixa eu entrar, Luís - ela disse.

Ele hesitou por um instante, mas ter um amigo nessas noites não seria nada mal. “Foda-se”, pensou, e abriu a porta.

A criatura entrou quase que violentamente, mas sorrindo. Olhava ao redor com muito interesse. Ela não usava nenhuma peça de roupa, mas seu magro corpo era coberto de pêlos, como os de um cavalo, e os longos cabelos pretos chegavam à cintura.

- Hm, não quer se sentar? - Luís apontou para a cama, sem jeito.

Ela se acomodou e bateu com uma mão peluda ao seu lado, sinalizando para que Luís se sentasse também.

Ele obedeceu.

- Quem é você? - O jovem perguntou.

Ela o olhou com grandes pupilas que cobriam quase todo o espaço branco dos olhos, que estavam abaixo de grossas e bagunçadas sobrancelhas. Quase sem queixo, seu rosto terminava em uma larga boca que ia de orelha a orelha.

- Não sei - ela respondeu, com toda a honestidade do mundo.

- Mas como você veio parar aqui, na minha cabeça, se eu não estou te imaginando?

Ela riu. Seus dentes eram pontudos.

- Eu sempre estive aqui, você que chegou faz pouco tempo.

- Então por que eu não te vi antes?

- Eu não pude fazer muita coisa desde que você assumiu o controle. - Ela já havia perdido o interesse no jovem e voltara a olhar ao seu redor. - Você me bloqueou.

- O que você fazia antes?

A mulher se levantou para olhar de perto o aquário.

- Se lá, o que eu quisesse - disse, batendo no vidro.

- Mas sempre aqui, na minha cabeça?

- Sempre aqui. Onde mais? - Ela pegou um peixe amarelo e o jogou em sua boca. Luís tentou disfarçar o choque - Mas, aparentemente, - ela continuou, mastigando - você prefere apertar um interruptor do que transar com a Mara vestida de Leia, o que eu posso fazer?

Ele ficou sem palavras por um instante, tentando entender o sentido daquilo tudo.

- Você controlava meus sonhos?

- Boa parte sim. A maior parte não.

- A maior parte eu que criava, certo? Meu inconsciente que criava?

- Sei lá - Ela fez uma cara como se nunca tivesse ouvido aquela palavra. - Só sei que você tirou todo mundo da jogada, né?

- E o que aconteceu com ele?

Ela deu de ombros, sinalizando que não sabia.

- E por que foi você que apareceu agora, e não o meu inconsciente?

Ela deixou o aquário de lado e o olhou seriamente.

- Olha, eu não sei responder essas coisas. Essas palavras que você usa… É difícil explicar o que se passa por aqui. - Ela foi até o bonsai, arrancou uma folha em formato de agulha e a cheirou. - Só sei que vi uma brexa e entrei. Fui mais rápida que qualquer outra coisa, acho. Só isso.

A mulher parecia não conseguir focar em algo por muito tempo. Luís apenas a observou, até tomar coragem e perguntar:

- Você pode me fazer sonhar como antigamente?

Ela o olhou surpresa, as grossas sobrancelhas arqueadas.

- Você quer isso?

- Quero.

- Eu… Sim, eu posso. Eu posso! Você só precisa me ajudar.

- Como?

- Senta num canto e fecha os olhos. Vou fazer umas coisas por aqui. Não me atrapalha!

- Tudo bem.

Ele sentou-se no puff e fechou os olhos. Já que teria que esperar, era melhor descansar. Esqueceu o quarto ao seu redor e focou apenas em sua mente.

- Não abre os olhos! - A criatura falou.

Luís a ouvia andando de um lado pro outro, como se estivesse muito ocupada.

- Vou fazer você não perceber que é um sonho. Você gosta de terror?

Ele demorou um instante pra entender a pergunta.

- Prefiro sci-fi e fantasia.

- Mas terror é legal também, né?

- Sim.

O jovem sentia e ouvia coisas aparecendo ao seu redor. Um ar frio chegou até ele, cheirando a umidade. Ouviu passos de outras criaturas. Uma, duas, três. Andavam de quatro, como cachorros.

Ele sabia que não estava imaginando aquilo, estava tendo um sonho de verdade, finalmente. Sentiu uma das criaturas aproximar-se de si.

Luís abriu os olhos. Estava em seu quarto novamente, acordado.

O dia passou devagar. A perspectiva de voltar a sonhar e de ter uma noite inteira de descanso fez com que ele apenas pensasse em dormir. Quando finalmente se deitou, após tomar alguns comprimidos, nem percebeu a transição.


Estava escuro. Ao seu redor coisas que ele não podia ver caminhavam e rastejavam. O chão era frio e lamacento. Ele não sabia onde estava, sabia apenas uma coisa: as criaturas procuravam por ele, e podiam farejar seus pensamentos.

Se escondeu no que parecia ser, pelo tato, uma abertura nas raízes de uma árvore. Sentia pequenas coisas que viviam ali rastejando e subindo em seu corpo. Tentou não pensar em nada enquanto tremia de frio e medo espremido naquele buraco.

Um pensamento fraco acendeu em sua cabeça. Havia algo que ele deveria se lembrar. Algo óbvio que explicaria o que era tudo aquilo, como ele chegara até lá. Por um instante ele deixou aquele pensamento tomar conta de sua cabeça.

Uma das bestas saltou até sua frente, grunhindo. Ele ouviu uma segunda, uma terceira, e muitas outras criaturas se aproximarem. Elas sabiam que ele estava lá.

Antes que pudesse tentar qualquer coisa, dentes afiados espremeram seu braço e o puxaram com uma força descomunal. Luís sentiu diversos focinhos em seu corpo, cada um arrancando um pedaço de carne.

Enquanto sentia seus órgãos sendo arrancados do seu corpo, ele ouvia o rugido dos animais. Misturado com aquele som, ouvia também uma risada grave de mulher.


Luís acordou antes do despertador tocar. Checou no celular: apenas um minuto para o alarme. Desligou-o rapidamente. Adorava quando isso acontecia. Havia dormido tudo o que tinha que dormir e não teve que ouvir nenhum barulho. Riu de felicidade. "O dia começou bem", pensou.

Levantou-se e considerou o que comer. Acabou se decidindo por fazer ovos mexidos com tomate, requeijão e um presunto que ele tinha que usar antes que estragasse. Colocou "Cantina Band" pra tocar enquanto cozinhava, assobiando a melodia apenas de samba-canção.

Estava de bom humor. Por que não estaria? Fazia mais de um mês que ele dormia maravilhosamente bem. Tinha pesadelos todas as noites, mas acordava descansado, ao contrário da época dos sonhos lúcidos. Agora seu cérebro conseguia relaxar durante a noite, ainda mais do que quando meditava dormindo.

O dia se passou sem qualquer acontecimento relevante. Mais uma noite no escuro, desprotegido, ouvindo ruídos terríveis ao seu redor. Outro dia. Outra noite. E outra. E outra. As vezes era atacado durante o sonho. Sentia sua pele sendo rasgada por centenas de dentes e as bestas saltando de todos os lados para provar sua carne. Outras noites apenas se agachava e chorava, tentando entender aonde estava, e o que havia feito para merecer aquilo. Tremia de medo das coisas ao seu redor. Durante os pesadelos tinha a sensação de já ter estado ali outras vezes, de ter sido atacado e comido vivo, mas não entendia porque havia voltado, e se um dia escaparia de vez.

Durante o dia estava feliz. Produzia bastante no trabalho, via seus amigos e sua família. Depois de meses finalmente sentia-se totalmente descansado, mas as vezes, quando estava sozinho em casa ou no banheiro da firma, fechava os olhos e via cenas horríveis. Criaturas com presas gigantes esperando a noite para lhe caçar. Elas estavam lá ainda, escondidas num cantinho da sua mente. Ele se lembrava dos sonhos quando estava acordado, era quando dormia que não se lembrava de onde veio.

Ao deitar tinha receio de dormir. Sabia que os pesadelos estavam fazendo bem para ele, mas o medo era inevitável. Fazia duas semanas que ele tomava remédio para dormir todas as noites, e pegava no sono encolhido, abraçado no travesseiro. “Talvez se eu me esforçar um pouquinho pra sonhar lucidamente, só um pouquinho…”, pensou já grogue, enquanto o quarto desaparecia ao seu redor.

Estava encolhido, escondido dos monstros na escuridão. Tentava não pensar em nada para não os atrair, mas um pensamento rápido invadiu sua cabeça: aquilo poderia ser um pesadelo. Estava tão escuro que não podia ver sua palma da mão. Não havia interruptores por perto. Sabia que se imaginasse algo e aquilo acontecesse provaria que estava em um sonho, mas só de tentar isso já atrairia as bestas. Sentiu uma se aproximar, farejando. Podia ouví-la se movendo no escuro. “Foda-se”. Imaginou o local em que a criatura estava sendo engolido por labaredas.

Acendeu-se uma fogueira imensa e toda a floresta se iluminou de dourado. O monstro uivava. Olhos por todos os lados voltaram-se para Luís enquanto ele se esforçava para manter aquele pensamento e a chama acesa. Colocou fogo em outro. E mais um. Cada labareda criava compridas sombras pela floresta.

Monstros saltaram em sua direção por todos os lados. Ele imaginou-se um mago, criando uma barreira de proteção ao seu redor. Uma esfera invisível lhe protegia dos ataques. Era difícil imaginar tanta coisa ao mesmo tempo e apenas um dos monstros continuou aceso. Estava imóvel. Deitado, queimava como uma pilha de carvão.

- Idiota! - Era a voz da mulher que havia prometido o ajudar.

As criaturas rodeavam a barreira protetora. Luís, com cuidado para não a tirar da cabeça ou a enfraquecer sem querer, conseguiu imaginar outro monstro pegando fogo. Assim que teve certeza que esse havia morrido, colocou fogo em mais um. “Posso passar a noite inteira assim”.

-Idiota! Estou te ajudando!

Luís só percebeu que desviou sua atenção da barreira por um instante quando uma pata gigante bateu em seu corpo, lançado-o ao ar. Chocou-se contra uma árvore a metros de distância e caiu no chão.

Sentia sua roupa rasgada nas costas e o sangue escorrendo por seu corpo. A dor era insuportável. Tentou tirar seu braço esquerdo de baixo de si mas ele não respondia. Rolou para sair de cima do braço e sentiu sua costela, certamente quebrada, cortando sua carne por dentro com cada movimento. “É só um sonho”, pensou levantando-se devagar.

Estava escuro novamente e Luís podia ouvir os monstros correndo em sua direção.

Idiota! - a voz agora vinha de perto do jovem - Você pediu por isso!

Luís correu até ela, imaginando-se segurando a empunhadura de um sabre, e com um estalo metálico um facho de luz saiu do cabo e iluminou o lugar de vermelho. Ele viu a expressão de surpresa no rosto animalesco da mulher quando a partiu em dois.


Acordou. Mas não estava no seu quarto, estava de volta àquele nada dos seus sonhos lúcidos. O nada que não era nem frio nem quente, nem escuro nem claro.

“Estou sonhando ainda. Voltei a sonhar lucidamente”. Ele olhou ao redor, como se procurasse alguém que pudesse ajudá-lo. “Não… não…”.

Acordou de verdade, suado, com o despertador tocando. Levantou-se e se arrumou para o trabalho de forma automática, pensando em como seria sua vida a partir de agora. Matara a única coisa que pôde o ajudar. Voltara a sonhar lucidamente. Saiu de casa em direção ao ponto de ônibus.

Suas pernas estavam bambas. Teria que passar oito horas todos os dias sozinho, sem ter o que fazer, para o resto de sua vida. Não descansaria mais. Enlouqueceria.

Atravessou a rua tão perdido em seus pensamentos que nem viu o que lhe atingiu.


O nada não era nem preto, nem branco. Luís não sabia por que estava sonhando. Ele ouvia vozes que vinham do mundo lá fora. Pessoas que ele não conhecia gritando. Ouviu familiares. Alguns falavam pra ele que tudo ficaria bem. Reconheceu a voz de sua mãe.

Esperou horas fazendo o que costumava fazer quando sonhava lucidamente: meditando, imaginando algo, passando um filme em sua cabeça. Só quando, durante uma conversa da sua mãe com um médico, Luís ouviu a palavra “coma”, que ele entendeu quanto tempo passaria naquela tortura.
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2019.04.04 05:48 lksdshk 25 anos minha carreira é um fiasco. Trabalho, mas me sinto subutilizado em atividades que não me agregam em nada

Sou formado em engenharia de produção numa faculdade privada meio peba desde 2018. Tenho um inglês razoável. Vou encurtar minha carreira assim conforme CLT
1- Menor aprendiz, SENAI, 6 meses pedi pra sair porque nao estava gostando mas terminei o curso
2 - 19 anos, indústria, 3 meses de experiência como operario em uma boca de porco, demitido.
3 - 20 anos Aeroporto durante a Copa, 3 meses, sai porque após a Copa não tinha mais gringos para praticar o inglês, o horário e localização de trabalho eran péssimos para mim
4 - 22 anos. Auge. Trainee em uma Big4. Status, salário bom...8 meses saí no corte por não ter me adaptado a auditoria contábil, cometi outros erros, trabalhei mal, minha inteligência emocional era zero ainda.
5 - 23 anos, estágio em uma empresa recém nascida, tirava 2k limpo! Dava o sangue lá, queria fazer as coisas funcionarem e praticar o engenheiro que tinha em mim. Dava ideias, testava controles... Porém, um costa quente antigo e conhecido dos donos não gostava de mim e um dia quase saimos na mão após ameaças dele. Nao fiz nada diretamente pra ele exceto um dia que fiquei puto quando ele fez algo mal feito e que não funcionaria para mim, teimoso e cabecinha, era de suar a camisa. Fiquei 4 meses e após esse fato me demitiram pra ficar com ele. Meses depois ele foi demitido porque era inútil mesmo.
6 - Assistente de Planejamento Logístico, atual.
A galera é gente boa, estou enturmado... porém, estou começando a ficar frustrado pois minhas atividades não envolvem planejamento nenhum. São séries de corno jobs e atividades que alguém numa área Estratégica da empresa como a minha não deveria fazer. Eu tenho uma mentalidade de métodos e processos e desperdício zero. Eu detesto apagar incêndios e fazer coisas de outras áreas. Eu realmente detesto a cultura da empresa de servir como intermediário em troca de emails, pois não há fluxos definidos. Exemplo, hoje fiquei um pouco puto de ter que ver com um fornecedor um dia e horário de uma reunião que eu sequer vou participar, quando o colega do meu lado estava nos emails e é com ele essa parada. Só fiz um trabalho analítico nesses 6 meses, apesar disso, eu peguei e entendo muito mais que a menina que estava no meu lugar sobre a Operação de Logística. Com 3 meses tive um feedback positivo, a chefa disse que eu participaria mais de reuniões, projetos...nada disso vem ocorrendo. Me sinto um estagiário idiota e não alguém com diploma superior.
Outro exemplo, uma parte da equipe foi para outro ESTADO fazer um treinamento numa filial. A tarde um dos coordenadores mandou email dizendo que ficaram desprovidos de "coffee break" e que queriam um para amanhã. Sério. VSF. Quer que eu ligue numa padaria do Paraná, dimensionar o pedido...nem vou terminar de escrever porque já fiquei nervoso. A trainee foi atrás disso pois foi ela quem organizou um similar recentemente. Eu caguei pra isso. Outros exemplos de atividades que eu faço/esperam que eu faça:
Solicitação de compras de cadeiras foi mais recente; material de escritório; pagamento de boletos de serviços feitos em outras filiais mas por demanda corporativa, cuidar do "caixinha", sacar o dinheiro das despesas do caixinha no banco; solicitar viagens e hospedagem; organizar uma planilha de programação de um cliente e intermediar contestações de dias das filiais (comercial pra que?); analisar reclamação de clientes (criei um CRM primitivo e analítico); votação de destaque do mês (ganhei em janeiro); solicitar ajuste de pagamentos realizados em nosso Centro de Custo mas que são serviços/produtos de outros lugares, imprimir e distribuir folha de ponto. Representar o setor em reuniões inúteis.
Esses dias me zoaram que eu estava começando a dar "sabonetadas", ao tentar delegar para outros ou questionar se tal coisa nao deveria ser outra área a fazer. A trainee disse que isso era uma característica boa em minha personalidade, significa que tenho visão de onde cada coisa deveria estar e o que fazer. Gosto da equipe, eles gostam de mim, já falaram que sou bom e tal..mas me sinto é um burro de carga.
Me entristece pois novamente sinto que estou no lugar errado pela SEXTA vez. E novamente estarei procurando emprego "entry level" e não tenho expecionalidade nenhuma. Tenho interesses profissionais diferentes...o que me salva é inglês e excel.
A única coisa que me mantém motivado nessa empresa é fazer cursos de excel da Impacta e o Gympass.
Mudar de área nao adiantaria. Já estou no setor que cuida do carro chefe da empresa. Eu deveria estar analisando resultados financeiros, propondo processos, tecnologias, estratégias...estou sendo otário?
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2018.12.05 23:22 avehomem [10 anos] COMO ME FUDI NO SHOW DO LOS HERMANOS

O texto abaixo corre a internet já faz algum tempo já faz pelo menos uma década. Vi a notícia do show do Loser Manos e quis reler o texto. Fui procurar e notei que o texto foi publicado neste blog em 11 de novembro de 2008. Ou seja, completou 10 anos algumas semanas atrás.
Pelo que parece é a fonte original, mas não tenho certeza. Eu, assim como todos meus conhecidos, li em algum outro fórum ou comunidade do Orkut. Divirtam-se!

COMO ME FUDI NO SHOW DO LOS HERMANOS,
por Adolar Gangorra em adolargangorra

Voltei para o Brasil há pouco tempo. Vivia com minha família na Inglaterra desde garoto. Estou morando no Rio de Janeiro há uns três meses e agora estou começando a me enturmar na Universidade. Não sei de muita coisa do que está rolando por aqui, então estou querendo entrar em contato com gente nova e saber o que tá acontecendo no meu país e, principalmente, entrar em bastante contato umas garotas legais, né?

Mas foi meio por acaso que eu conheci uma menina maneiríssima chamada Tainá. Diferente esse nome, hein? Nunca tinha ouvido. Estava procurando desesperadamente um banheiro no campus quando vi uma porta que parecia ser a de um. Na verdade, era o C.A. da Antropologia. A garota já foi logo me perguntando se eu queria me registrar em algum movimento estudantil de sei lá o que. Que bacana! Que politizada ela era! E continuou a me explicar a importância de eu me conscientizar enquanto enrolava em beque da grossura de uma garrafa térmica. Pensei em dizer que estava precisando cagar muito rápido, mas ela era tão gata que eu falei que sim. Tainá: cabelos pretos, baixinha e com uma estrutura rabial nota dez... Aí, acho que ela me deu um certo mole... Conversa vai, conversa vem, ela me chamou para um show de uma banda naquela noite que eu nunca tinha ouvido falar: Loser Manos. Nome engraçado esse! Estava fazendo uma força sobre-humana para manter a moréia dentro da caverna, mas realmente tava foda. Continuamos conversando e rindo. Ela riu até bastante, mas eu, na verdade, tava era mesmo rilhando os dentes porque assim ficava mais fácil disfarçar as contrações faciais que eu estava tendo ao travar o meu cu para não cagar ali mesmo na frente dela.

Pensando bem, eu tinha ouvido falar sim alguma coisa sobre essa banda lá na Europa ainda, mas não lembro bem o quê. Ah, acho que vi esses caras hoje no noticiário local dando uma entrevista. Achei que fosse uma banda de crentes tradicionalistas tipo Amish. Todos de barba, com umas roupas meio fudidas. Parecia até a Família Buscapé! Dão a impressão de ser uns sujeitos legais, mas o que me chamou a atenção mesmo foi o jeito da repórter, como se fosse a fã nº 1 deles, como se estivesse cobrindo a volta do Beatles ou coisa parecida. Não entendi esse jeito "vibrão" de trabalhar. Bom, mas se eu conseguir ficar com o bicho bom da Tainá hoje à noite, já tô no lucro! Marcamos de nos encontrar na entrada do ginásio. Rapaz, acho que tô dando sorte aqui no Brasil!

Ia ser fácil achar essa garota no meio da multidão. Ela se veste de uma maneira estilosa, diferente, bem individual: sandália de dedo, saia indiana, camiseta de alça, uma bolsa a tiracolo e o mais interessante: um óculos retangular, de armação escura e grossa, engraçado até! Depois de uns mil "Desculpe, achei que você fosse uma amiga minha.", finalmente encontrei Tainá e seu grupo de amigos. Cacete, isso sim é que é moda! Parecia uniforme de escola!

Ela me apresentou suas amigas, Janaína e Ana Clara e seus respectivos namorados, Francisco e Bento. Uma mistura de fazendeiros com intelectuais. Um cara de macacão, de sandália de pneu e com ar professoral. Outro de colete, tênis adidas, óculos e também com ar professoral. Pareciam ser legais, "do bem" como eles mesmo falam... Mas que não me deram muita conversa. "Do bem", isso mesmo! Gíria nova... Todos aqui são "do bem". E que nomes tão simples e idílicos! Janaína, Ana Clara, Francisco, Bento e Tainá. Nada de Rogérios ou Robertos. E eu que já tava me sentindo meio culpado por me chamar Washington... Realmente estava no meio de uma nova época da juventude universitária brasileira!

Comecei a conversar com a Tainá antes que a banda entrasse no palco. Aí... acho que tá rolando uma condição até! Quem sabe posso me dar bem hoje? Ela começou a falar de música: "De quem você é fã?", perguntou. Pô, eu me amarro no George..." Ela imediatamente me interrompeu, dizendo alto: "Seu Jorge? Eu também amo o Seu Jorge!" Puxa, que legal! Ela gosta tanto do George Harrison que se refere a ele com uma intimidade única! Chama ele de "Seu"! Seu Jorge! Isso é que é fã! "Legal você já conhecer ele, hein? Eu sabia que ele ia se dar bem na Europa! O Seu Jorge é um gênio!", ela emendou. Pô, eu morava na Inglaterra. Como eu não ia conhecer o George Harrison?

Essa eu não entendi...

Logo ela perguntou quais bandas que eu gostava. "Eu curtia aquela banda da Bahia...".

"Ah, Os Novos Baianos, né?? Adoro também!" "Não, Camisa de Vênus! "Silvia! Piranha!" cantei, rindo. A cara que ela fez foi de quem tinha bebido um balde de suco de limão com sal. Senti que ela não gostou muito da piada. Tentei consertar: "Achava eles engraçados, mas era coisa de moleque mesmo, sabe?" Óbvio que não funcionou... Aí, acho que dei um fora...

Depois, Tainá foi me explicando que o tal Loser Manos é a melhor banda do Brasil, etc., etc., etc., e que eles "promovem um resgate da boa música brasileira". "Tipo Os Raimundos com o forró?", perguntei. "Claro que não!", disse ela meio exaltada! Ela me falou que não se pode comparar os Hermanos com nada porque "eles são únicos", apesar de hoje existirem outros excelentes artistas já reverenciados pela mídia do Rio de Janeiro como Pedro Luis e a Parede, Paulinho Moska, O Rappa, Ed Motta, Orquestra Imperial, Max de Castro, Simoninha e Farofa Carioca. Ela mencionou também "Marginalia" ou coisa parecida. Foi isso mesmo que eu ouvi? Achei que ela estivesse elogiando eles... Esses foram os nomes artísticos mais escrotos que já tinha ouvido, mas fiquei quieto. Fico feliz em saber sobre essa nova onda musical pois quando saí do Brasil o que fazia sucesso no Rio era Neuzinha Brizola e seu hit "Mintchura". Ainda bem que tudo mudou, né?

Só depois percebi que o nome da banda é em espanhol: Los Hermanos. Ah bom! Mas se eles são tão brasileiros assim porque não se chamam "Os Irmãos"? Quando saí daqui os nomes de muitas bandas costumavam ser em inglês e até em latim. Ainda bem que essa moda de nomes de bandas em espanhol não pegou no Brasil!

Pelo que me lembro, ao explicar qual é a dos "Hermanos", ela usou a expressão "do bem" umas 37 vezes e disse que eles falam de romantismo, lirismo, samba e circo. Legal, mas circo? Pô, circo é foda! Uma tradição solidificada nos tempos medievais que ganha dinheiro maltratando animais. Onde está a poesia de ver um urso acorrentado pelo pescoço tentando se equilibrar miseravelmente em cima de uma bola enquanto é puxado por um cara com um chicote na mão? Rá, rá, rá... Engraçado pra caralho! Na boa, circo é meio deprimente. Palhaço de circo só troca tapão na cara e espirra água nos olhos dos outros com flor de lapela e quando sai do picadeiro, vai chorar no camarim. Que merda! A única coisa legal no circo mesmo é quando ele pega fogo! Isso sim que é um espetáculo de verdade! Aquela correria toda, etc. Senti que essa galera se amarra em circo. Não faz sentido se eles são tão politicamente corretos assim, né? E os pobres animais? E eu querendo não passar em branco na conversa com a Tainá, mas não conseguia lembrar de jeito nenhum a única coisa que eu sabia sobre a banda... Cacete...! O que era mesmo?

De repente, uma gritaria histérica! O show tava começando! O ginásio veio a baixo! Perguntei pra ela: "Eles são todo irmãos, né, tipo o Hanson?" Ela disse um "não" esquisito, como se eu tivesse debochando. Todos eles usam uma barba no estilo Velho Testamento e se chamam "Los Hermanos"! O que ela queria que eu pensasse? Após ouvir a primeira música deu pra ver que os caras são profissionais mesmo, tocam muito bem e são completamente idolatrados pelo público, para dizer o mínimo. Fiquei prestando atenção ao show. Pô, as músicas são boas! Dá pra ver uma influência de Weezer, Beatles e Chico Buarque. Esse aí é fodão, excelente compositor mesmo. Lá na Inglaterra conhecia uns caras que eram ligados ao movimento "Dark", como chamam por aqui. São os sujeitos que gostam de The Cure, Bauhaus, Sister of Mercy, etc. E tem a maior galera aqui no Brasil também que se veste de preto, não toma sol, curte um pessimismo niilista e se amarra nessas bandas. Mas se eles sacassem que o Chico Buarque é o genuíno artista "Dark" brasileiro... Pô, é só ouvir as músicas dele pra perceber: "Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego" ou "O tempo passou na janela é só Carolina não viu". "Pai, afasta de mim esse cálice, de vinho tinto de sangue" ou "Taca pedra na Geni, taca bosta na Geni, ela é boa pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni". Tudo alegrão, né? Aí, se eu fosse dark, só ia ouvir Chico Buarque, brother!

Tentei reengatar a conversa dizendo que achava ao baixista o melhor músico dos Los Hermanos. Ela respondeu, meio irritada: "Mas ele não é da banda!" Como eu ia saber? O cara tem barba também! Aí, não tô entendendo mais nada...

Adiante, ela me disse que o cara que ela mais gostava na banda era um tal de Almirante. Depois de alguns minutos deu pra ver que o camarada imita um pouco os trejeitos do Paul McCartney, só que em altíssima rotação. Ele fica se contorcendo feito um maluco enquanto os outros ficam estáticos. É engraçado até! Parece que ele tem uma micose num lugar difícil de coçar! E fica falando e rindo direto. Ele é o irmão gaiato do cara que canta a maioria das músicas, o tal de Marcelo Campelo, como anunciaram no noticiário local hoje. Isso mesmo, Marcelo e Almirante Campelo: "Os Irmãos"! Legal! Já tava me inteirando! Ah, e tem também dois gordinhos de barba que estão lá também, mas devem ser filhos de outro casamento...

Tava um calor desgraçado, coisa que eu realmente não estou mais acostumado. Fui rapidão ao bar pra beber alguma coisa. Comprei umas quatro latas de refrigerante que era o único troço que tava gelado para oferecer para meus novos amigos: "Aí, trouxe umas coca-colas pra vocês!" Ouvi a seguinte resposta: "Coca-Cola? Isso é muito imperialista... Guaraná é que é brasileiro!" Puxa, que pessoal politizado... Isso mesmo, viva o Brasil! "Yankees, go home", rá, rá! Outro fora que eu dei! Mas, pensando bem, eles não usam o Windows e o Word pra fazer trabalhos da universidade? Ou usam o "Janelas"? Dessas coisas gringas não é tão mole de abrir mão, né? Mais fácil não tomar Coca-Cola! Isso sim que é ativismo estudantil consciente! Posicionamentos políticos à parte, tava quente pra burro, então bebi tudo sob o olhar meio atravessado de todos eles... fazer o quê?

Lá pelas tantas, começou uma música e todo mundo berrou e pulou. Parecia o fim do mundo. Logo nos primeiros acordes, reconheci o som e falei pra Tainá: "Ah, eu sei o que é isso! É um cover do Weezer! Me amarro em Weezer!" Ela olhou pra mim com uma cara indignada e disse: "Que Weezer o quê? O nome dessa música é "Cara Estranho". Já vi que não gostou de novo... Mas quem sou eu pra dizer algum coisa aqui, né? Porra, mas que parece, parece! Mas o que era mesmo que eu não consigo lembrar de jeito nenhum sobre eles? Acho que conheço alguma outra música deles... Só não consigo dizer qual...

Sabia que se eu quisesse me dar bem logo com a Tainá teria que ser entre uma música e outra pois parecia que ela estava vendo um disco voador pousar enquanto os caras tocavam. Resolvi fazer uma piada pra descontrair, que sempre rola em shows. Quando o Campelo tava falando alguma coisa qualquer, berrei: "Filha da putaaaaaaaaaa!" Pra que? Tainá e sua milícia hermanista me deram uma cutucada monstra na costela que me fez enxergar em preto e branco uns 5 minutos! Pô, todo show alguém grita isso! É quase uma tradição até! Eu me amarro no cara! E é só uma piada! Aí, esse pessoal leva tudo muito a sério! Caralho... Pensei em pegar uma camisinha da minha carteira e fazer um balão e jogar pra cima, como rola em todo show, pra mostrar pra Tainá que eu sou uma cara consciente, tipo: "Aí, Tainazão, se tu se animar, eu tô preparado!", mas depois dessa vi que senso de humor não é o forte dessa galera...

O tempo tava passando e nada de eu ficar com minha nova amiguinha. Quando fui tentar falar uma coisa no ouvido dela, foi o exato momento em que começou uma outra música. Foi aí que a louca deu um grito e um pulão tão altos que eu levei uma cabeçada violenta bem no meio do meu queixo! Ela não sentiu nada, óbvio, pois estava em transe hipnótico só por causa de uma canção sobre a beleza de ser palhaço ou lirismo do samba ou qualquer outra coisa do gênero. A porrada foi tão forte que eu mordi um pedaço da língua. Minha boca encheu d´água e sangue na hora! Enquanto eu lutava pra não desmaiar, instintivamente enfiei a manga da minha camisa na boca pra estancar o sangue e não cuspir tudo em cima de Ana Claudia e Jandaína or something. Só que estava tão tonto com a cabeçada que tive que me segurar em uma ou outra pessoa pra não cair duro no chão. Foi quando ouvi: "Nossa, que horror! Lança-perfume! Esse playboy tá doidão de lança! Que decadência..." Lança-perfume? Cara, lógico que não! E mesmo que tivesse, todo show tem isso! Mas nesse, não pode. É "do bem". É feio ter alguém cheirando loló!! Pô, todo show que eu fui na vida tinha alguém movido a clorofórmio. Aqui, não. Rapaz, onde fui me meter?

Babei na minha camisa até o ponto dela ficar ensopada! Fui ao banheiro tentar me recuperar do cacete que tomei. Lavei o rosto e tirei a camisa. Quando voltava passei por uma galera e ouvi resmungarem alguma coisa do tipo: "...e esse mala aí sem camisa..." Porque não se pode tirar a camisa num show? Isso aqui não é só uma apresentação de uma banda? Parecia que eu ainda estava na Europa! Regulões do caralho... E, afinal, o que significa "mala"?

Estava enxergando tudo embaçado e notei que minhas lentes de contato tinham saltado pra longe com a cabeça-aríete de Tainá e esmagadas por centenas de sandálias de dedo. Lembrei que sempre levo um par de lentes extras no bolso. É uma parada moderna que eu achei lá em Londres. Um estojo ultrafino com uma película de silicone transparente dentro que mantém as lentes umedecidas e prontas para uso. Abri o estojo e peguei cuidadosamente a película com as duas mãos e elevei-a contra a luz para conseguir achar as lentes. Estiquei os polegares e indicadores, encostando uns nos outros, para abrir a película entre esses dedos. Balançava o negócio levemente, de um lado para o outro, contra a pouca luz que vinha do palco para conseguir localizar as lentes. Não estava enxergando nada direito! Quando tava lá com as mãos pra cima, fazendo uma força absurda pra achar as lentes, um dos caras legais com nomes simples, me deu um puta safanão no ombro. É claro que o silicone voou longe também... Caralho, minhas lentes! Custaram uma fortuna! Que filho da puta! "Que sinal é esse que tu fazendo aí, meu irmão? Tá desrespeitando as meninas?"

"Que sinal?? Que sinal??", respondi, assustado!

"De buceta, palhaço!", apertando o meu braço que nem um aparelho de pressão desregulado. "Você tá no show do Los Hermanos, ouviu? Los Hermanos! Ninguém faz sinal de buceta em um show do Los Hermanos, sacou?", gritou o tal hipponga na minha cara.

Que viado, eu não tava fazendo nada! Parecia uma freira de colégio! Que lance é essa de buceta? Da onde esse prego tirou isso? As meninas... (Perái! Menina? A mais nova aí tem uns 25!) ficaram me olhando com a cara mais escrota do mundo! A essa altura, já tinha percebido que não ia agarrar a Tainá nem que eu fosse o próprio Caetano Veloso! "Bento", que nome mais ridículo... Isso aqui é um show ou uma reunião de alguma seita messiânica escolhida para repovoar a Terra?

Caramba, que noite infernal! Tava com a língua sangrando, sem enxergar direito, só de calça, arrotando sem parar e puto da vida porque só tinha aceitado vir aqui por causa de mulher. Estava no meu limite. Isso era um show ou uma convenção do Santo Daime? Que patrulhamento! E, de repente, vejo Tainá e seus amigos olhando feio pra mim e cantando a seguinte frase: "Quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?" Aí foi demais! Eu me atrevo: Ritmo, melodia e harmonia. Pronto, só isso! Mais nada! Olha só: foda-se o samba, foda-se o circo, foda-se a obsessão por barba da família Campelo e, principalmente, foda-se essa galera "do bem" que está aqui!

Apesar de tudo, a banda é realmente é muito boa! O que incomoda mesmo é esse público metido a politicamente correto e patrulhador e a imprensa que força a barra pra vender alguma imagem hipertrofiada do que rola de verdade. Esse climão de festival antigo de música popular brasileira, daqueles com imagens em preto e branco, com todo mundo participando, que volta e meia reprisam na tv, tudo lindo e maravilhoso. "Puxa vida, um novo movimento musical brasileiro!"? "Estamos realmente resgatando a nossa cultura!" ? Que exagero... Ei, é só música pop! MÚSICA POP!

Caralho, finalmente lembrei! Eu conheço uma música deles! Ouvi em Londres! Numa última tentativa de salvar meu filme com Tainá, na hora do bis, berrei bem alto: "TOCA ANA JULIA!" Só acordei no hospital. Tomei tanta porrada que vou ter que fazer uma plástica pra tirar as marcas de pneu da minha cara! Fui pisoteado! Neguinho ficou puto! Qual é o problema com essa música? Me lembro de estar sendo chutado pela elite dos estudantes universitários brasileiros e da própria Tainá, gritando e me dando um monte de bolsadas na cabeça! Que porra louca! Tentaram me linchar! Ofendi todo mundo! Pô, Ana Julia é uma música boa sim! É um pop bem feito! Se não fosse, o "Seu Jorge" Harrison não teria gravado, né? Se ele não entende de música, quem entende? Me disseram depois que o tal Campelo se retirou do palco chorando, magoado, e o outro irmão mais novo dele, o nervosinho que imita o Paul McCartney, pulou do palco pra me bicar também. Do bem? Do bem é o cacete...

Aí, sinceramente, ainda prefiro o show do Camisa de Vênus...
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2017.09.11 12:34 gilsonvilain Dorocaso — Corações de Areia

Dorocaso Corações de Areia
“Essas alegrias serão jogadas ao esmo. A areia vai consumir suas lembranças até a última gota, e quando não sobrar mais nada você vai virar areia.” Jochasta, rainha dos esquecidos.
De pé ele olhava para as nuvens no céu sem sentir seus pés. Caminhando eternamente sem destino, elas vagavam escuras e carregadas como ele nunca havia imaginado. O solo é engolido pelo breu e os escorpiões alaranjados saem da areia. Cavando e cavando, centenas de lacraus submergem do da escuridão, brilhando e batendo suas garras como soldados marchando para o combate. O medo lhe puxa pela espinha, mas suas mãos estão vazias. Ao longe uma sombra de luz surge na imensidão.
-Davi! A cidade chegou! Davi! Você ainda não acordou? –Disse Franz ao lado da porta. Seus cabelos loiros iluminavam demais para sua vista adormecida. Piscando com força seus olhos, devagar ele se esticava na cama de esponja até sentir suas articulações despertarem. –Hoje não é o seu dia de vender as beterrabas? –Como um soco no peito ele se levantou. O sol já se erguera, e ele ainda estava ali.
-Chuva! –Disse o rapaz se pondo de pé velozmente, apenas para sentir uma tontura e perder parcialmente a visão tendo que se apoiar nas paredes para se manter. Calçando os sapatos escuros e com cheiro engraçado ele se ergueu novamente. Desviando das pequenas lâminas curvadas no chão, ele achou seu caminho até Franz.
-Eu e o Caiou já colocamos as caixas no Sableridge, até que horas você ficou afiando as talons? –Disse o Franz cedendo espaço para que Davi passasse correndo para as escadas. –E não esqueça de comprar um filtro novo para o reservatório!
Subindo as escadas como um lobo atrás de sua presa, Davi vê de relance Seth, Nami e Gilli sentados na mesa da cozinha. –Até as crianças já estão acordadas e eu aqui. –Subindo as escadas enquanto afivelava o cinto marrom, ele se voltou para a janela, olhando ao fundo a grande cidade cinzenta parada no deserto. –Mau dia! –Disse ele pegando a máscara azul presa na parede ao lado do espelho retangular e a colocando em seu rosto. Apertando o fecho e pressionando o único botão em sua lateral, ela se acendeu em um branco fraco. –Ah não!
Olhando a lateral do respirador ele passou o dedo por cima de pontinhos roxos que cercava o gradeado da máscara. Com o polegar pelo lado de dentro ele pressionou o puxador, fazendo as grades se abrirem e liberando a película tomada por centenas de micro pontos que variavam de roxo até rosa fraco. Davi abriu o armário de metal embaixo do espelho deixando que uma brisa gélida saísse. Colocando a película para dentro, fechou a porta e acertou o tempo para quinze segundos. Olhando novamente o espelho ele notou várias manchas de sangue coagulado em seus ombros e braços. Davi deu a volta e foi até a impressora amarelada de sujeira. Pressionando o menu ele selecionou a cor, comprimento da manga e por fim o tamanho, fazendo que a máquina emitisse um som agudo e constante ao passo de que o armário embaixo do espelho soou três apitos seguidos. Retirando a película sem luvas Davi sentiu como se seus dedos fossem derreter, só então sentindo o real frio quando encaixou a lâmina branca de volta na máscara. Vestindo a camisa bege de manga comprida, ele religou o respirador que se acendeu em um branco forte.
Fechando a porta de trás e abrindo a da frente ele foi em direção ao Sableridge. Vários arranhões circundavam o veículo encouraçado, as duas esteiras frontais estavam gastas mas não chegavam ao nível de desgaste dos pneus traseiros. Estes foram remendados tantas vezes que Davi já não sabia se eram feitos de borracha ou de remendo. A lataria perfurada era estrategicamente escondida pela sujeira e a lama viscosa das estradas. –As chaves! –Pensou ele batendo as mãos nos bolsos, só para perceber que não portava nenhuma. –As chaves! Gritou ele em direção a toca.
-Já estão dentro! - Disse Caiou do segundo andar. Davi Se aproximou do painel e ouviu o som de motor. Ele se voltou para Caiou e assentiu com a cabeça.
Poucas estradas cruzam em direção ao grande deserto. A pista de fogo sai da capital até o batalhão especial no sul, circulando o continente e passando por todas as grandes vilas. Usando areia vermelha para montar seus tijolos, a pista de fogo era o jeito mais fácil e seguro para aqueles que não possuíam problemas com o Armata. Ao seu lado muitas trilhas foram feitas ligando pequenas vilas até a pista de fogo, como galhos em um tronco. A estrada de pedra sai das grandes montanhas e se conecta com as estradas de terra, geralmente usadas por contrabandistas ou fugitivos, uma vez que não haviam patrulhas. Davi saiu da toca e seguiu em frente pegando a estrada de barro, o caminho que ele mesmo batizara, ligando a toca até a vila das palmeiras a oeste. Com uma agricultura rudimentar, a vila das palmeiras resistia apenas pela criação de roedores. Fáceis de alimentar eles eram a moeda de troca de algumas dezenas de famílias. De lá ele pegou a estrada de ferro, cruzando a floresta das almas até o grande deserto ao norte. Dali ele já conseguia ver as marcas de pneus na areia, sinal de que estava atrasado. Acelerando ele sentiu o veículo trepidar e perder força, mantendo o acelerador pressionado enquanto reduzia a marcha. Ainda assim a força havia indo embora, e ele seguiu até a pista de fogo na velocidade de um homem correndo. Devagar ele viu rasgando o deserto azul e branco. Mais de mil passos de largura, e outros oito mil de comprimento, com esteiras maiores que a vila das palmeiras, e com pistões mais fortes que dez mil homens, marchando para cima e para baixo, em um compassar estrondoso. Maciça e barulhenta, ela cavava com seus pistões exteriores descendo e subindo como um ferreiro batendo seu martelo, se enterrando mais fundo naquela areia sem dono, ela descansava enquanto ele se apressava. Apertando o pé contra o pedal e tentando aumentar as rotações, ele notou um grupo de pessoas segurando placas. Davi não conseguiu ler o que estava escrito, as manchas azuladas em suas peles tiraram sua atenção. Engatinhando pela estrada de fogo, ele rumou ao sul do titã encouraçado, seguindo outros veículos que jaziam estacionados ali.
Davi estacionou o sableridge ao lado de uma motocicleta de propulsão amarela. Algumas dezenas de veículos estavam ali, ainda assim Davi se surpreendeu com a baixa quantidade. Em temperaturas amenas, aquele pátio sempre estivera lotado de lanchas terrestres e caminhões. No porta-malas ele retirou as quatro caixas cheias de beterrabas, cada uma pesando metade de seu peso. Suas veias saltaram por entre a pele, e com um urro de vontade ele as ergueu caminhando lentamente até a entrada norte.
-Vento! Eu preciso ir até o templo das Lamentações! –Disse uma voz vinda de trás de Davi. Ele girou sua cabeça para procura-la mas no instante seguinte ela havia sumido. –Você tem um carro, pode me levar lá? –Disse a voz. Davi abaixou as caixas e conseguiu ver a moça a sua frente. Bem menor do que ele suspeitava, ela se erguia pouco a cima das quatro caixas deixadas no chão. Olhos cinzentos e lábios fartos, ele não conseguiu distinguir mais nenhuma caraterística dela, além de sua barriga proeminente e arredondada.
-Eu estou indo vender beterrabas na vila. –Disse ele olhando seus braços finos e curtos. –Esse templo fica no norte, não acho que tenha alguém de lá por aqui. –Disse ele se abaixando para pegar as caixas.
-Você não entende, eu preciso ir lá! –Disse ela erguendo a voz e riscando a areia com seu pé.
-Eu entendo, mas agora eu não posso fazer nada para te ajudar. –Disse erguendo novamente as caixas e a perdendo de seu campo de visão.
-Você pode depois? –Perguntou ela com um tom mais doce. Davi começou a andar e não olhou mais para trás. –Vou te esperar aqui!
-Não foi isso que eu quis dizer. –Falou ele alto o suficiente para ouvir suas palavras ecoarem pela vastidão seca, mais baixo o suficiente para não ouvir resposta alguma.
Se arrastando para frente, uma moça de cabelos escuros e longos passou por ele, porventura as caixas ainda tapavam sua visão frontal, o impedindo de conseguiu ver seu rosto. Ele gostava da ideia de andar sem ser percebido. Ao seu lado as vozes vindas da cidade se intensificavam, o empurrando para frente. Ouvindo passos na areia, ele inclinou a cabeça para ver um homem baixo com uma barriga proeminente caminhando de mãos dadas com uma menina de cabelos alaranjados. Os escorpiões voltaram a sua cabeça, e ele desejou que Nissa falasse algo que o puxasse de volta, mas ela estava na toca.
-Chuva! Posso ajudar? –Disse o homem com turbante branco, portando uma máscara amarela e uma barba escura e rala. Davi abaixou as caixas e suspirou por um segundo relaxando os ombros. O homem flexionou os olhos e pequenas bolsas de pele surgiram em cima de suas bochechas.
-Chuva! Eu vou vender as beterrabas. –Disse ele esticando a mão em direção ao homem.
-Os vendedores de comida já estão localizados no setor dois, penso que não há mais espaço para estandes. –Disse o homem o olhando de queixo erguido.
-Eu me atrasei. –Disse Davi abaixando o braço e se aproximando. -Mas eu tenho uma reserva. –Disse batendo as mãos nos bolsos. -E eu conheço o prefeito. –Disse Davi gesticulando com suas mãos armadas em veias proeminentes enquanto ele abria os bolsos internos da camisa.
-Certamente que não conhece. –Disse o homem de turbante. –Uma vez que eu não tenho nem ideia de quem é você, e eu sou o prefeito; Alouite Seeiso. –Disse o homem dois palmos menor que Davi, erguendo ainda mais o queixo para cima. Davi desistiu de procurar a licença e coçando a cabeça.
-Eu deixei na outra camisa! –Percebeu ele olhando para o céu. -Na verdade o prefeito que eu conheço se chama Timothy, ele tem cabelos escuros, é magro e... –Disse Davi gesticulando as medidas com as mãos. –Alto.
-Ah. –Disse Alouite. –Esse é o segundo prefeito. –Disse abaixando a cabeça e apertando os dentes. –De qualquer modo eu sou o prefeito para os assuntos externos da vilavassoura. Eu cuido de quem entra e quem sai.
-Eu sei. –Disse Davi sorrindo por debaixo da máscara. –O Thimoty cuida da manutenção da vila, proteção das pessoas, educação dos jovens, tratamento dos enfermos, conserto das máquinas, contrata os seguranças. –Enumerou Davi olhando para as beterrabas ardendo no sol do deserto. –E o senhor cuida de quem entra e sai. –Disse Davi se mordendo para não o chamar de porteiro.
-Thimoty tem suas funções, eu tenho as minhas. –Disse ele se virando de costas. -E o período para alocação de novos estantes já se encerrou.
-Eu também preciso comprar um filtro. Já acabou o período de entrada de compradores também?
-Hum. –Disse o prefeito de turbante declinando o queixo e encarando os tubérculos. –Você entra, as beterrabas não.
-Tudo bem, quando eu encontrar um vendedor de filtros, eu peço para ele vir até aqui fora retirar o pagamento, o senhor toma conta delas para mim? –Perguntou ele levantando uma caixa e colocando aos pés do prefeito. O homem bufou mais forte e se voltou para recolocar a caixa em cima das outras. Buscando todas as forças de seus braços flácidos, o prefeito ergueu a caixa poucos centímetros do chão, soltando suas alças e voltando a ficar ereto.
-Leve isso daqui. –Disse Alouite ofegante.
-Obrigado senhor prefeito! –Disse Davi erguendo as quatro caixas e seguindo em frente para a o portão de acesso.
-Bem-vindo a vilavassoura. –Disse ele em um tom seco. –Espero vê-lo novamente. –Apertando os olhos e ajeitando o turbante.
O chão de areia afundava a cada passo de Davi. Jogando areia para trás, ele sentia que a cada passo andava menos. Pisando em falso sentiu a areia dar lugar a tábuas de metal. Forçando os joelhos ele subiu a entrada que se elevava pelo menos oito passos do nível do chão. A grande fachada esculpida em madeira e aço, dizia “Village de Balai Cinq”, vilavassoura em uma língua antiga. A gigante de aço possuía metralhadora automáticas acopladas a parte de dentro apontadas para o chão. Aportando e um lugar diferente a cada dois dias, a bordo ela levava mais pessoas que ele conheceria sua vida inteira. Mais cores de cabelo do que tons de céu, mais vozes do que mil autofalantes. O cheiro das comidas, mesmo passando pelo respirador, já encharcava Davi por dentro. Olhando para o arco de entrada, ele viu seis guardas carregando fuzis e ao seu lado um grupo de pessoas rodeando um grande homem de cabelos longos e encaracolados. Davi abaixou as caixas para conseguir olhar por cima, fazendo seus músculos guincharem por dentro, mas seguindo em direção as pessoas.
-Eles andam em caravanas. Centenas de milhares. Caminham até as vilas, e lá destroem tudo. Nada fica para trás, nem os habitantes, é terrível! –Disse a senhora de cabelos curtos usando uma camisa de flores brancas, combinando com sua máscara.
-Devem ter sido mandados pelos homens de sabão. Eles estão há décadas se alastrando pelo litoral. –Disse o senhor de máscara lilás com um guarda-chuva em mãos.
-Não são os homens de sabão, quando paramos na vila da pedra, um soldado me disse que eles comem as pessoas e usam os ossos como adereços, isso é coisa do povo vermelho! –Disse o senhor careca usando um roupão verde.
-Estamos seguros aqui. –Disse o homem no centro, rodando os dedos por entre os fios de cabelo que caiam por seus ombros. –Além disso, todos os relatos são de vilas no Norte. Não há nenhum indício que ela esteja marchando para cá.
-O bosque vermelho foi dizimado. A fumaça chegou até a capital. Quando a Armata foi para o socorro, só haviam cinzas. –Disse a senhora. O homem alto inclinou a cabeça atento a suas palavras quando no meio da multidão, algo pescou sua atenção.
-Com licença. –Disse o homem alto esticando o braço. –Davi?
Davi o olhou e sorriu, ganhando espaço em meio ao aglomerado, colocou as caixas no chão esticou a mão e apertando o antebraço do senhor.
-Chuva Prefeito! –Disse ele chacoalhando o braço e sentindo os dedos finos e longos se apertarem em sua pele.
-Veio vender amoras? –Perguntou o homem de pele clara e lábios roxos e esticados.
-Pretendia. –Respondeu Davi apertando os olhos e observando as beterrabas por um instante até retornar os olhos para o prefeito. Ao seu lado havia uma grande porta dupla de vidro que guardava o estreito corredor em frente, lotado de pessoas andando por entre as lojas. O prefeito girou sua cabeça na mesma direção e coçou o nariz pontiagudo.
-Vamos ver onde eu consigo colocar você. –Disse Timothy dando um tapa em seu ombro. Davi pegou as caixas nos braços e o seguiu enquanto ele entrava na antessala do tumulto. As vozes se mesclavam a multidão atrás do vidro, podia se ouvir tudo, mas nada se entendia.
-Não vi você aqui mês passado. –Disse o prefeito erguendo os braços enquanto a primeira porta de vidro se fechava. No mesmo instante um jato de fumaça quente e clara saiu do chão e inundou toda a parte enquanto o prefeito retirava o respirador. Alguns segundos depois a fumaça se esvaiu pelo teto e a segunda porta se abriu dando acesso ao corredor.
-Mês passado. –Repetiu Davi erguendo as caixas de madeira. –Deu um vazamento lá em casa, tive que desligar todas as saídas de ar, perdemos boa parte da colheita.
-Sinto muito. Suas batatas são ótimas, as cenouras nem tanto. –Disse ele espiando as beterrabas por entre as frestas da caixa. –Você teve mais alguma notícia do Colm? – Davi balançou a cabeça. A mão do prefeito veio ao seu ombro mais uma vez enquanto ele sorria olhando para o chão. -Já pode tirar o respirador. –Disse o prefeito olhando Davi. Cerrando os olhos ele abriu a boca por um suspiro e a fechou. –Eu esqueci, o Colm me contou, mas eu esqueci, desculpa. –Disse ele enquanto Davi erguia o ombro e coçava a cabeça.
Adentrando a multidão de pessoas andando por entre as lojas, o prefeito achava brechas entre os cotovelos e ombros para Davi passar sorrateiramente, avançando entre bolsas e mochilas, sua altura lhe forneci uma visão privilegiado do pátio interno. Alguns passos para frente e uma voz chamou “prefeito! ”. Thimoty se virou e viu um sujeito de pele escura com olhos vermelhos. Com os dedos o prefeito gesticulou pequenos círculos, voltando sua cabeça para frente e seguindo até a segunda parte sem se virar para trás.
-Aqui estamos! –Disse o prefeito olhando o círculo de vendedores sentados em frente a caixas de legumes. –Você vende amoras, amoras são como alfaces não? –Perguntou ele, jogando um cacho de cabelos para trás enquanto olhava para as alfaces.
-Os dois são plantas, mas acho que beterrabas entram mais na sessão de raízes. –Respondeu Davi.
-Hahahahaha raízes! Mas não vendemos árvores aqui, e o único estande que tem espaço é o da alface. –Disse ele apontando para as folhas verdes e crespas. Davi virou a cabeça, mas não disse nada, apenas sorrindo para o prefeito e colocando as caixas no chão. –Chuva minha menina! Qual seria o seu nome? –Perguntou ele piscando para a jovem de cabelos escuros sentada atrás das caixas da alface.
-Naya. –Disse ela entortando a boca e olhando Davi de baixo para cima. –Naya Avilis, senhor. – Seus cabelos se agrupavam em cachos pequenos e longos. O delicado nariz arrebitado apontava para Davi enquanto ela falava com o prefeito. Davi apertou os punhos para tentar sair do seu encanto, mas já tinha certeza que estava encarando a jovem a tempo de mais.
-Este menino tem problema. –Disse o prefeito em direção a Davi, que mesmo assim não tirou os olhos de Naya. –Ou teve um problema. Ele pode dividir o espaço com você hoje? –Perguntou se abaixando e analisando de perto as hortaliças.
A jovem olhou sem expressão para Davi, que corou em menos de um suspiro. Ela ergueu o braço e puxou ar para argumentar, mas virou a mão e o olhou de lado.
-Achei um lugar para você! –Disse o prefeito voltando a ficar de pé. –Vocês se acertam então, eu vou ali procurar algum nabo. –Disse ele sorrindo e andando em direção aos tomates.
-Com licença. –Disse Davi colocando as caixas roxas ao lado das verdes. –Eu me chamo Davi. –Disse ele esticando o a mão em frente. A jovem sorriu e apertou seu antebraço.
-Naya. –Repetiu ela cedendo espaço para que ele dividisse a caixa ao seu lado. –Você por acaso não tem nenhum anel de vilírdia, tem? –Perguntou ela observando um roxo no pescoço de Davi. Ele balançou a cabeça tapando o machucado com a mão direita. –Imaginei que não. –Disse ela erguendo a sobrancelha ao olhar o respirador branco. –Você já foi lá? –Perguntou ela enquanto Davi levantava as sobrancelhas e fazia um beiço com os lábios. –Eu nasci lá. Em Viliris. Você é daqui?
-Eu nasci no Norte. –Mentiu ele. -Uma vila comerciante. –Disse engolindo em seco e levando os olhos até o rosto dela. –Onde fica Vilirdis?
-Viliris. Você nunca ouviu falar? –Perguntou ela abaixando as sobrancelhas e erguendo as bochechas. –Eu saí de lá ainda muito pequena, mas ela fica no extremo leste, entre mares. –Disse ela erguendo a mão e gesticulando uma onda. –No encontro de três continentes, uma linha traçada nos oceanos, delimita a vida e a morte poente, a água dá início e fim aos planos, construindo a ferro e fogo; o tridente, E costurada através dos séculos; mil anos, surge no mar da primeira e última corrente, Viliris, a cidade com sangue dos tiranos, viva para sempre, Viliris, a cidade descontente. –Cantou ela abaixando a mão ao final.
Davi a olhou boquiaberto. Nunca ouviu da cidade, mas as palavras deixavam sua boca com pétalas se soltam de flores no outono. Sua pele lisa acendia entre o cinza das paredes. Seus olhos escuros puxavam sua alma para dentro, e ele já não tinha forças para segura-la. Suspirou fundo e balançou a cabeça.
-Ela fica... no mar? –Perguntou ele encarando as alfaces.
-No Nemo. –Disse ela tirando o cabelo da frente dos olhos. –O ponto mais distante da terra entre os três continentes. –Disse abrindo um tímido sorriso. –Um dia eu vou voltar para lá.
-Quanto pelas batatas rosas? –Perguntou o homem alto de cabelos castanhos curtos que se aproximara usando uma capa marrom e um colete escuro, com braçadeiras pretas que vinham até os pulsos, e duas grandes cicatrizes no pescoço.
-São beterrabas. –Disse Davi se levantando e pegando uma da caixa.
-Batatas, baterrabas, tudo a mesma coisa. –Disse o homem estreitando os olhos. Passando a mão por dentro do colete, ele retira uma corrente avermelhada e a entrega para Davi. –Doze batatas rosas? –Perguntou ele. Davi olhou para a corrente e esticou a mão para pegá-la. Passando os dedos entre os elos e olhou de volta para o homem.
-Oito. –Disse Davi. O homem passou a mão em outro bolso e retirou um pequeno brinco prateado e o colocou na mão de Naya.
-Doze. –Disse ele rangendo os dentes enquanto ela olhava para a joia. Davi se voltou para Naya que segurava o brinco em frente aos seus olhos.
-Doze. –Repetiu Davi assentindo com a cabeça. O homem retirou a mochila das costas e começou a escolher as beterrabas. Naya entregou o brinco a Davi que o segurou com as pontas dos dedos. O brinco imitava o formato de uma orelha, adornado de pequenas pedras azuis, ele formava uma ponta no topo. Voltando-se para o homem, Davi já não o encontrava a multidão de pessoas andando entre as vendas.
-Bonito esse brinco. –Disse Naya passando o dedo por sua ponta.
-Você quer? –Perguntou ele corado.
-Ele é seu. –Disse ela se afastando.
-Eu não uso brinco, ele iria ficar bonito em você. –Disse ele esticando a mão em sua direção. Ela o apanhou e colocou na orelha esquerda.
-Como ficou? –Perguntou ela.
-Sen... –Disse ele buscando ar nos seus pulmões. –Sensacional. –Completou sorrindo.
-Mas eu não te conheço, não posso aceitar um presente assim. –Disse ela desatarraxando o pingente.
-Não, é um presente. –Disse Davi esticando seu braço em direção as hortaliças e pegando uma folha verde e molhada. –É uma troca. –Disse ele mordendo a alface com força e empurrando o resto da folha para dentro da boca. Naya riu e colocou o brinco de volta.
Antes do sol chegar no topo, todas as beterrabas já haviam sido trocadas, ao passo que mais da metade das alfaces esperavam paciente nas caixas de madeira. Davi já havia aprendido sobre o período de Naya em Viliris, sobre o Vento, o barco de seu pai que havia cruzado todos os mares baixos da costa entregando tâmaras do oceano. Dos monstros antigos que ameaçavam os cargueiros a cruzar os estreitos de pedra. Do tempo em que Naya morou nas minas de marfim com sua tia, das aventuras nas montanhas azuis, de sua vinda até a vilavassoura. Davi podia ficar ali o ano inteiro a ouvindo falar.
-Eu moro em uma “casa” na floresta. –Disse Davi apoiado na borda da vila vassoura apontando para o horizonte. –Você continua por aquele caminho até a vila das palmeiras e vira para a estrada de barro.
-Eu preciso ficar aqui a tarde, você não volta amanhã? –Perguntou Naya olhando as árvores dobradas. Davi balançou a cabeça olhando para baixo. –Meu pai é dono de uma empresa de mineração perto daquela montanha ao sul. Talvez eu volte para visita-lo um dia. Se você me convidar para conhecer a sua casa, talvez eu aceite o sofrimento de passar um tempo com ele.
-Ele é mau com você? –Perguntou Davi se voltando para ela. Na parte de fora do mercado, os dois se escoravam na lateral da cidade de aço. Naya usava um respirador vermelho com azul. Davi pensou em sugar todo o ar do mundo só para poder ver seus lábios mais uma vez.
-Ele é ausente. –Disse ela olhando para a amontanha verde. –Desde que ele deixou o barco e criou raízes na terra, ele não tem tempo para mais nada.
-Se você quiser ir lá em casa, eu acompanho você até essa fábrica. –Disse ele sorrindo por debaixo da máscara.
-Gostaria de ver você tentar. –Respondeu ela o olhando no fundo de seus olhos. –Você é diferente Davi. –Ele se virou de costas para a borda da cidade se encostou com as costas e cotovelos.
-Diferente bom? –Perguntou ele inclinando a cabeça.
-Diferente, porque você tem tantos roxos pelos braços? –Perguntou ela se voltando para examinar os machucados.
-Ah isso. –Disse ele olhando para um grande hematoma no seu pescoço. –Você me acompanha até a toca, e eu te conto o que você quiser saber sobre mim.
-Hum. –Disse ela torcendo o lábio. –Isso é um encontro? –Perguntou ela erguendo as sobrancelhas.
-Não, isso é só uma conversa. –Respondeu ele observando o brinco em sua orelha esquerda. –Quando eu te ver de novo será um encontro.
-Me diga algo primeiro. –Disse erguendo as sobrancelhas. –Porque você entrou no mercado de máscara? –Os pelos nos braços de Davi se eriçaram e ele baixou os olhos, dando um passo para trás.
-Eu preciso ir. –Disse ele diminuindo em tamanho.
-Desculpa. –Disse ela. –Eu não queria...
-Não há nada por que pedir desculpas. –Disse ele se aproximando das caixas vazias deixadas no chão. –Eu não me importo tanto com isso. –Disse ele desengatando a fivela que prendia a máscara branca. Devagar ele a abaixou segurando a respiração. Engatando novamente suas pontas ele puxou o ar com dificuldade até o respirador se acender em branco. –Mas as pessoas olham muito quando eu fico sem. Por isso prefiro ficar com ela.
-Com quantos anos você saiu de lá? –Perguntou ela deixando que as lágrimas corressem soltas sem se importar.
-Eu não sei. –Disse ele sorrindo com os olhos. –Minha mestra me tirou de lá, eu conto meu aniversário a partir daí.
-Entendo. –Disse ela limpando os caminhos deixados pelas lágrimas em seu rosto. –Então, eu passo a vila das palmeiras e viro à esquerda?
-Esquerda de quem vêm, direita de quem vai. –Disse ele caminhando em direção a saída da vilavassoura.
-Eu vou mesmo hein. –Disse Naya passando os dedos no brinco esquerdo.
-Assim espero. –Disse ele erguendo a mão e a balançando no ar. –Chuva Naya de Viliris!
-Chuva Davi! –Disse ela já distante.
Caminhando até o sableridge com as caixas vazias, tudo o que Davi conseguia fazer era reviver em sua mente as lembranças que recém fizera. Entoando as falas e buscando por detalhes que havia deixado passar. Naya deixou seus olhos, mas não sua mente. O cheiro doce. Desejou poder sentir aquele perfume para o resto da vida, mas tudo o que tinha era ar filtrado.
Caminhando sem pensar, avistou o sableridge, agora com muitos veículos ao redor. Sem pressa ele depositou as caixas no seu porta-malas e deu a volta para ir embora. Entrando ele fechou a porta e esticou a mão para puxar o cinto, olhando para o lado e sentindo seu coração apertar tanto que poderia sair do lugar.
-Agora você me leva? –Perguntou a moça grávida sentada ao seu lado. Davi não gritou, mas sentiu sua alma tremer.
-O que você está fazendo aqui dentro?! –Perguntou ele soltando o cinto a abrindo a porta.
-Você disse que me levaria. –Respondeu ela afivelando o cinto.
-Não! Eu disse que... –Começou ele apontando seu dedo, só então tentando lembrar do que havia dito. As palavras se enrolavam em sua mente, mas ele tinha noventa por cento de certeza de que não havia dito aquilo. Olhando para dentro ele viu os olhos da moça se abaixarem enquanto ela erguia os lábios inferiores para frente. –Eu não vou para lá. Posso te deixar na vila das palmeiras, de lá talvez você consiga alguma carona. A moça concordou com a cabeça, e Davi reentrou no sableridge.
Dirigindo em silêncio para fora da cidade na areia, Davi notou quatro motocicletas estacionadas na entrada da floresta que dava caminho para a estrada de ferro. Olhou para os lados, mas não viu ninguém, decidindo por seguir em frente. Pensou que se tivesse com a Ajna, poderia rever seu rosto depois, mas com a incerteza das vilasvassoura, talvez tudo que restasse fosse aquela memória malformada ainda.
Acelerando em frente o veículo começou a falhar perdendo força. Reduzindo a marcha as esteiras forçavam o carro sem resultado. Duas motos de propulsão surgiram em meio as árvores retorcidas e tomaram a frente do veículo. Davi pisou o acelerador, mas as rotações não aumentavam, permanecendo pouco mais rápido que um homem caminhando.
-Ele não anda mais que isso? –Perguntou a moça olhando para o velocímetro no painel. Davi tirou os olhos do volante e examinou as marcas no chão, só então se voltando para ela.
-Peixe dado não se olha as ovas. –Respondeu pisando fundo no acelerador sem retorno. Ao longe um ronco começou a crescer. Olhando pelo retrovisor ele viu quatro motos se aproximando.
-Talvez eles possam ajudar. –Disse ela olhando com seus olhos cinzas pelo retrovisor.
-Você conhece eles? –Perguntou Davi olhando os quatro homens descerem das motos com armas em mão. Ela balançou a cabeça se apertando para trás. Parando ao lado da porta do carro, um homem a apontou um revólver para Davi. Segurando o volante com mais força e retirando o pé do acelerador, o carro morreu.
-Sai todo mundo! –Disse o homem do lado de fora. Davi olhava fixamente para a moça. Respirando forte ele não sabia como havia sido tão ingênuo. Claramente ela conhecia eles. O velho truque da laranja que prepara o terreno para seus amigos. Seu sangue fervia em suas veias, e ele sentiu vontade de dar um soco naquela barriga falsa. Mas aquela arma era o problema principal, por enquanto
-Calma amigo, a gente só quer o que você ganhou lá dentro. –Dizia outro homem de ombros largos e cabelo curto, usando um respirador azul escuro, ao lado da porta do carona. Suando frio, ele não ousou olhar para o porta-malas, onde todo o seu ganho daquela manhã estava guardado.
Davi respirou fundo e retirou o cinto de segurança, apertando o botão vermelho abaixo do volante antes de ser puxado pela fora pelo homem que se agarrara ao seu pescoço, o jogando no chão. O homem careca se aproximou e começou a dar tapas nas pernas e braços de Davi que tentava se recompor.
-Limpo. –Disse o careca se afastando.
-Se vocês continuarem assaltando os clientes da vilavassoura, eles vão apenas parar de vir aqui. –Disse Davi olhando o homem de máscara azul enquanto outros dois entraram no sableridge revirando os bancos em busca de algo. A grávida estava em pé do lado de fora segurando sua barriga falsa.
-A gente segue ela, problema nenhum, sabe. –Disse ele fixando os olhos escuros em Davi. –Mas pelo visto você já tem um costume de ser assaltado, sabe. –Disse ele olhando para os roxos nos braços de Davi.
-Mais ou menos. –Respondeu ele olhando para trás. Um distante ronco de motor vinha em direção a estrada de fogo. Davi só conseguia pensar em quanto odiava surpresas.
-Tem uma luz piscando aqui dentro. –Avisou o homem de barba grisalha de dentro do carro.
-Você chamou alguém? –Perguntou o homem de azul dando um tapa no rosto de Davi. –Eu queria fazer as coisas sem violência, mas vocês sempre pedem, sabe. –Disse ele puxando a arma de trás das costas e apontando em direção ao barulho.
-Não chamei ninguém. –Disse Davi vendo no horizonte um veículo preto se aproximando, enquanto sentia seu rosto esquentar. Davi estava tão confuso quanto eles, o carro parecia ser de Thimoty. O homem deu-lhe mais um tapa com as costas da mão e Davi caiu de joelhos segurando a máscara. Do chão ele viu o assaltante disparar uma saraivada de balas em direção ao carro, fazendo que ele virasse para o lado e batesse em cheio a uma árvore, levantando uma nuvem de areia.
Thimoty, aquele era o carro do prefeito. Rodas prateadas, capô adornado em madeira. O que ele estaria fazendo ali, se perguntou no chão.
-O que a gente faz Tellius? –Perguntou o homem careca.
-Vá ver quem está lá! –Urrou o homem de azul apertando os dentes. Correndo em direção ao carro preto, um vulto abriu a porta e saiu mancando escorando-se nas árvores.
-Quem vem lá? –Perguntou o homem careca apontando seu revólver. Uma voz doce veio em resposta, atiçando os nervos de Davi ao máximo.
-Naya. –Disse ela erguendo as mãos enquanto o homem se aproximava.
Davi olhou para cima ignorando a conversa entre os dois. Procurando no céu, ele ainda não havia encontrado nada.
-Não vai chover hoje não garoto. –Disse o homem de azul rindo em pé a sua frente. –Tragam a menina, tenho um amigo que pagaria bastante por ela, já essa grávida aí...
-Não é chuva que eu espero. –Disse ele vendo um risco no céu.
O homem abaixou o rosto para olhar novamente para Davi, sendo surpreendido por uma cabeçada em seu estômago. Davi se levantou e subiu em cima do carro gritando “Aqui, aqui! ”. O risco no céu voava rápido e ao se aproximar largou uma grande caixa de metal em cima do veículo, balançando sua estrutura e levantando uma grande nuvem de poeira e detritos.
-Maldito! –Disse o homem de azul no chão com uma mão na barriga e a outra tapando os olhos contra a poeira. –Eu vou te picar inteiro e te jogar para os peixes, sabe! – Ao seu lado a grávida corria para dentro da floresta em direção a vila das palmeiras.
Davi pulou em cima da caixa e ela jogou uma forte luz esverdeada que o varreu por completo em menos de um piscar de olhos. A caixa abriu as laterais, saindo lâminas longas que se encaixaram nos pés de Davi, subindo o tornozelo, joelhos até se prender completamente nas duas pernas. As lâminas se prendiam desordenadamente, se arrastando entre si até encontrarem o seu encaixe. Davi pulou para frente a caixa se ergueu em seu próprio eixo, encaixando uma camada de lâminas nas suas costas, correndo o metal até os seus braços, cobrindo cada parte do seu torso. Ele se virou para trás ouvindo um tiro, rapidamente pegando o elmo prateado com um círculo azul claro no meio. Ajeitando em sua cabeça, ele se voltou para olhar os homens ainda confusos pela nuvem de poeira.
Investindo em frente, Davi passou as lâminas das mãos pelas costas do braço do homem de azul, fazendo seis pequenas e rápidas incisões em seu braço direito, enquanto contornava por trás, golpeando as pernas do homem sem reação. A lâmina fina penetrava a carne como um graveto penetra a areia. Entrando e saindo, ele costurava uma trilha de pequenos furos que passavam a pele e se enterravam até ele sentir um desengate interno. Indo para dentro do carro, Davi golpeou os dois invasores dezenas de vezes em pontos entre as costas e a barriga, sem derramar uma única gota de sangue. Com a poeira baixando ele conseguiu ver ao longe o homem careca apontando a arma para Naya, tremendo como um galho fino em frente ao furacão. Jogando a arma no chão, ele correu para trás, em direção ao grande deserto.
-Meus braços, o que você fez com os meus braços?! –Perguntou o homem no chão. Davi se aproximou emitindo um som de lâminas de metal se arrastando umas nas outras. Davi já estava cansado, e aquela armadura facilmente pesava o dobro das caixas de beterraba.
-Meu juramento me proíbe de matar qualquer um que não esteja no mesmo nível. Eu só cortei todos os tendões dos seus braços, você não vai mais usa-los. –Disse Davi retirando o elmo. –Mas o juramento não fala nada sobre abandonar moribundos. –Disse Davi passando a lâmina da mão esquerda por entre a tira que prendia a máscara azul do sujeito. Pegando-a com a mão Davi a colocou em cima da mão imóvel do homem no chão. –Sua máscara está aqui, é só a colocar de novo. Mas prenda a respiração, o ar daqui não faz muito bem, sabe?
-Desgraçado. –Disse o homem selando os lábios e amaldiçoando Davi com os olhos.
Se atentando aos sons, ele sentiu uma fisgada lhe puxar a direita, recolocando o elmo. “Nissa? ” Perguntou ele sem voz. “Três ameaças neutralizadas. Um suspeito está correndo em direção ao grande deserto a 2,759 metros por segundo. ” Ele sorriu ao ouvir a voz dela em sua mente. “Como elas estão? ” Perguntou ele se virando para olhar Naya. “Uma sofreu arranhões e uma provável contusão no lobo parental. A outra sofreu um tiro no tornozelo, está perdendo sangue. ” Davi girou seu corpo para olhar a grávida no chão se arrastando, esticando no chão uma linha vermelha que a separava de seu pé direito.
-Você é um... –Disse Naya se aproximando mancando com um filtro em mãos. Davi se voltou para ela e retirou novamente o elmo, pressionando o círculo azul claro em seu centro. A armadura de lâminas se soltou e caiu no chão desmontada. -Você é um alado!
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2017.02.15 22:01 Scalira Right Where It Belongs

THROW ME IN THE LANDFILL
Havia sete anos que Mick Rory não ateava fogo a nada.
Havia jurado pelo sangue de sua mãe não começar um incêndio outra vez, não importando a beleza das chamas deflagradas a beijar e retorcer a madeira. Ou o quão bonito era vê-las crescer, uma força em si mesmas, um inferno calcinante que não deixava nada em seu caminho; vibrantes como a vida e impiedosas como a morte. Havia jurado por Leonard, o garoto que conhecera trinta anos antes no reformatório e que precisara salvar de ser esfaqueado até a morte, e com quem crescera contando estórias no meio-fio de uma estrada, bicicletas jogadas a um lado, ignorando que Lenny trazia um olho roxo e que rir, para ele, doía. Leonard, dos planos infalíveis e do sorriso gatuno que lhe fazia acreditar que tudo daria certo, no fim. Dos olhos frios, das emoções reclusas, o garoto Snart que não deixava ninguém chegar perto demais para ver o que havia por trás de suas barreiras de gelo, por trás de suas defesas tão bem construídas.
Jurou pelo mesmo Leonard que chorou à sua hospitalização.
Mick não tinha como saber com certeza.
Havia começado como sempre começa: uma chama inocente queimando em algum lugar; uma faísca. E Rory a alimentara para vê-la crescer e consumir e devorar: uma deusa dourada, implacável e cruel, verdadeira e justa. Ela o chamava, o convidava a descobrir os segredos do universo, aqueles segredos sussurrados apenas na sabedoria do fogo e, oh!, ele os queria descobrir. Os sons calavam quando o fogo falava e tudo ao redor – a casa rangendo, as vigas retorcidas, o teto desabando – nada disso importava, nada disso valia se o fogo apenas dissesse que o queria, chamasse seu nome...
Estava engolido nas chamas quando Leonard voltou por ele.
Estavam no meio de algo importante, não estavam? Mick já não conseguia se lembrar o que era. Tantos anos de vida no crime tornavam difícil distinguir os roubos pequenos dos grandes, os assaltos a mão armada dos intrincados planos milionários e com o fogo tão perto, tão quente e tão gentil, Rory não conseguia sequer lembrar-se de onde estavam. Alguém gritou que não deviam ter chamado o incendiário; uma voz tão fraca que implicava distância e pés fugidios que se afastavam do prédio, mas não os de Leonard. Os de Leonard faziam o caminho inverso, para longe da segurança e da noite clara e fumarenta e para dentro do inferno e do fogo, querentes de levar Mick com eles.
— Mick! — O ouviu gritar, não pela primeira vez. Mas o som era tão distante, tão fraco e irrisório frente ao estalar das chamas que não se voltou para vê-lo — Mick, nós temos que ir! Mick!
Outra noite Mick teria ouvido. Se as mãos de Leonard – aquelas mãos enluvadas, finas demais para esses trabalhos – o houvessem conseguido alcançar, Mick teria ouvido. Só que as chamas o engoliam em uma miríade, uma torrente, um paraíso de labaredas dançantes e sedutoras que se postavam entre ele e Lenny. Mick não podia ser alcançado. Não podia ser detido. As chamas o consumiriam e – deus, ele não negava – a morte seria bem-vinda.
Em algum momento, a voz de Lenny calou. Em algum momento, a escuridão o tragou. Em algum momento, as chamas cessaram.
Não esperava acordar.
Passou dias em tratamento intensivo. Quando foi finalmente movido a um quarto não recobrou a consciência. Foram semanas entre a realidade e a ilusão, o sonho e o desespero, alucinando na tênue linha da mortal eternidade. Mais de uma vez pensou-se morto; a voz canora de sua mãe o chamava de filho e o convidava a ir para casa. Tantos anos perdido e agora finalmente encontrava o caminho de volta – era questão de seguir e aceitar. Mas noite dessas ouviu um soluço. Um soluço que pedia para ser perdoado, que pedia desculpas, que chorava em seu leito. Na junta do pescoço com o ombro, sentiu suas lágrimas. Elas trilhavam um caminho salgado nuca abaixo e era o único gosto de realidade que este sonho ainda tinha.
— Mick — Naquela voz roubada de Lenny, quebrada de choro — Mick, eu sinto tanto.
E aquela ilusão não convencia porque Lenny jamais pediria desculpas – jamais teria pelo que se desculpar. Tudo o que fizera, todos esses anos, fora salvar Mick do inferno de ser quem era. Trazer à sua vida o mínimo de normalidade. Lenny era uma constante, uma luz em meio a tormenta de se estar perdido sem saber de onde viera ou para onde iria. Leonard o fez sentir-se como parte de algo outra vez e Mick não se sentia assim desde a infância, vivendo em uma cidadezinha campestre a oeste da civilização. Embora as memórias deste tempo não estivessem exatamente lá, uma parte de si se lembrava amado e querido. Lembrava, também, de ter uma família e de ser mais do que empecilho ou ferramenta; lembrava de pertencer e do calor dos abraços, dos afagos e dos beijos, das noites embaladas de estórias e da afeição incontida. Por que Leonard se desculparia por ser sua família?
— Mick, eu sempre... — E as palavras sussurradas só para ele ouvir eram sonho e fantasia, eram delírio e pesadelo, eram tudo o que Mick sempre quisera e mais do que podia aceitar e este Leonard era utopia que selava o que tinham de um jeito que nenhum dos dois jamais se atreveu.
Mick nunca teve como saber com certeza que aquela noite não fora um delírio. Que Leonard Snart, o próprio, viera ao seu leito e chorara por ele por pensar-se culpado de alguma mágoa só sua. Mick jamais soube, mas a lembrança desta noite – sonho ou realidade – fê-lo prometer que nada daquilo se repetiria, mesmo que implicasse se afastar para não ferir; dar as costas ao bando de Leonard sem dizer para onde ia, incapaz de crer-se estável o bastante e controlado o bastante para deter-se diante das chamas. E se tivesse que escolher entre Leonard e o fogo, não estava bem certo do que escolheria. Para viver consigo, debaixo daquela casca de corpo onde deveria ter um homem, Mick deu-lhe as costas e não olhou para trás. Leonard não o procurou.
Sete anos e as coisas continuavam iguais.
Controlar a vontade do fogo não foi fácil.
Esses anos todos foram repletos de remédios e terapia, visitas psiquiátricas e duras observações. Os grupos de apoio – Mick pagou com a língua por rir dos imbecis que a eles se juntavam – foram, talvez, a mais útil das medidas que tomara. Saber-se junto de outros seus iguais ajudava. Aplacava essa voz insistente e ranzinza, gritando que era um doido; um psicótico que, como o fogo, só era capaz de calcinar e destruir, deixando nada além de cinzas por onde quer que passasse.
Foi difícil aceitar que não teria a companhia das chamas outra vez.
Não foram poucas as vezes que se viu em recaída olhando para labaredas que subiam e estalavam e beijavam e mordiam. Embora os fogos jamais tenham saído de controle, a pontada de culpa logo virava maré e mar em ressaca e Mick se via à deriva nessas águas de autocomiseração.
Toda vez que se olhava no espelho – e ele se forçava a se encarar no espelho, a camisa puxada acima dos ombros para ver os estragos – tinha de ver os ombros e as costas lavrados de cicatrizes; marcas fundas na pele que se arrastavam para todos os lados como um polvo cujos tentáculos jamais se esticariam o bastante para naufragar navios no mar branco de suas costas. O horror que o fogo deixara manchara para sempre sua carne e sua vida.
Uma parte sua gritava que essa era sua verdadeira natureza: monstruosa, deformada, tingida pelas chamas que tanto amava e a que se entregaria sem pensar, consumido na abençoada inconsciência que o fogo traria. Mas outra parte – o todo de quem era – tinha de se lembrar que não era por ele. Era por Leonard. Porque aquelas marcas poderiam muito bem não ter acabado em seu corpo, mas em Leonard. O mesmo Leonard que se orgulhava da pele macia, das mãos finas de gentleman, da beleza que traía o fosso onde crescera com seu pai e irmã. Aquelas marcas do fogo poderiam ter-lhe tomado a vida, a forma, o corpo e a carne; incinera-lo a uma massa pútrida e informe a ser deixada para trás para ser reconhecida pelos dentes. E teria que suportar Lisa olhando para ele – para aquilo que restara do irmão – e erguendo os olhos de princesa para encará-lo com raiva, com ódio, com as chamas do fogo gritando vingança.
Todas as vezes que se via no espelho Mick Rory se forçava a ver este cenário, vivo como uma brasa que queimasse em sua mente e por trás de suas retinas. E todas as vezes que baixava a camiseta estava resoluto a seguir em frente mais um dia.
Fugiu para algum lugar da boa e velha América, para uma dessas cidades sem nome que malmente figuram em um mapa. Bom lugar para permanecer de tocaia, para esperar a poeira baixar até que as coisas se acertassem outra vez, para largar-se com as costas no chão e os pés para cima até seu cheiro desaparecer na poeira da estrada. Mas este era seu passado falando; um Mick Rory que não existia mais.
As coisas nunca se acertariam outra vez.
Este lugar era agora sua casa, inda que lar fosse uma palavra que não usaria de novo. Não era amado, tampouco temido. Os anos que ali vivera o tornaram uma constante dessa cidadezinha; um membro que era pouco mais que figuração, parte da paisagem, rotina. Tinha um emprego medíocre numa oficina mecânica e se comprazia em dar ofício às mãos. Quando elas trabalhavam, calejadas e sujas de graxa, a mente se ocupava dos detalhes e das peças, das engrenagens e dos parafusos e se afastava da escuridão que gritava pelas chamas.
Os dias passavam indiscerníveis e iguais. Era uma existência monótona, preto e branca, tão diferente dos tempos efervescentes que passara com os Snarts e seu bando. Volta e meia se pegava pensando naqueles roubos, nas expressões aparvalhadas da polícia, na pilhagem e nos espólios e ria sozinho. Seus colegas o tomavam por louco – e como estavam certos, mas pelas razões erradas! –: o imbecil musculoso que dava para falar sozinho e rir por motivo nenhum. Mick deixava que pensassem o que quisessem. Leonard o havia convencido, tantos anos antes, dos benefícios de ser subestimado e de passar despercebido.
— Ei, grandão! — Porque nesse lugar esquecido por deus ele não tinha um nome. Era “o grandão”, “você aí”, “o cara lá”. Tudo certo. — Tem alguém procurando por você!
E lá nos fundos da oficina estava Leonard Snart, o próprio, bem do jeito que Mick lembrava.
Após sete anos no escuro, Mick Rory viu as chamas outra vez.

Leonard Snart era um homem de palavra.
Ele não acreditava em deixar um dos seus para trás, muito menos em trair a confiança que lhe fosse imposta. Não eram muitas as pessoas que mereciam seu apreço e estas poucas com quem se importava eram aquelas que protegia. Leonard sabia que, em sua linha de trabalho, aqueles que você ama são sempre usados contra você; as únicas coisas que podem te ferir são as dores causadas àqueles por quem você daria a vida. Mas não se importar era a mesma coisa que não estar vivo. Lenny preferia os riscos desta afeição a uma existência vazia que não se perdoaria viver.
Assim, quando Mick Rory deu baixa no hospital – o mesmo hospital para onde Leonard o havia arrastado num desespero de que nem bem se lembrava; o hospital que tivera de pagar do próprio bolso, arrumando um emprego de fachada – e decidiu por conta que não iria voltar com eles, mas sim partir para sabe deus onde, Leonard teve que engolir o orgulho e a honra e todas as bonitas palavras ensaiadas que o fariam ficar. Teve de medir sua paciência e impedir-se de fazer algo de que se arrependeria. Teve de respirar e forçar-se a encontrar a calma; um lugar dentro de si para onde ia para esquecer de quem era. Teve de fechar os olhos e saber que era melhor assim.
Quando Mick partiu Leonard não o procurou.
Havia algo naquelas costas que sumiam na distância que diziam que essa vez não era como as outras. Que Mick não voltaria com um sorriso vagabundo e um ar de cachorro abandonado, nem que Leonard devesse procura-lo e consertar fosse lá o que houvessem quebrado. Len tentava esquecer que talvez fossem as cicatrizes – aquelas fundas e feias cicatrizes que carcomiam a carne e que rajavam os ombros e que despontavam mesmo das mangas longas dos casacos. Tentava esquecer que talvez fosse o fogo, talvez fossem as chamas, talvez fosse um chamado. E tentava esquecer que Mick Rory não voltaria atrás naquela decisão.
Melhor assim, era o mantra repetido para se convencer de que não falhara com Mick. De que não fora sua culpa as coisas terem chegado tão longe. De que não fora preciso que um dos dois quase morresse para verem que não podiam seguir em frente, não assim. Melhor assim. E tinha que se forçar a engolir essa sensação de que estava deixando Mick para morrer, como um gato velho demais e doente demais que se afasta de casa para perecer sozinho.
Os trabalhos foram surpreendentemente bons ao longo dos anos.
Leonard sabia que não ter Mick por perto tinha lá suas vantagens.
Para começar, era muito mais fácil pensar sem tê-lo por perto. Era fácil planejar seus golpes sem se preocupar se Rory conseguiria manter-se sob controle, se conseguiriam entrar e sair sem serem vistos ou se acabariam o dia engolidos em chamas. Era menos estressante; fazia bem não ter que olhar sempre atrás de si e procura-lo, não ter que se preocupar com ninguém além de si próprio durante um assalto. Mas o preço que Leonard havia pago não compensava o lucro dos ganhos. Era Lisa quem apontava as olheiras, frutos de noites mal dormidas. E resmungava por serem dois idiotas, um mais cabeça dura que o outro.
— Ele não quer ser encontrado, Lisie — Falou certa feita. Erguia os olhos das plantas dos prédios que estudava antes de haver cochilado.
— O que não quer dizer que você não deva ir atrás dele.
E aquela foi sua última palavra sobre o assunto.
Len, sendo o sujeito racional que era, teve de analisar todo prospecto possível que a situação exigia. Se – e era um grande “se” – voltasse por Mick, como as coisas seriam entre eles, então? Ele tinha de saber-se mais confiável; saber que impediria o outro caso a situação fosse outra vez tão extrema. Os pesadelos, mesmo passado anos, se repetiam iguais. Eram cacofonias de gritos e fogo e o estalar e ranger da madeira. Lembrava de acreditar que o arrastava morto para fora da casa, desesperado demais para qualquer outra coisa que não agir por impulso. De jogá-lo para dentro do carro e deixar joias e dinheiro para trás, pouco se importando se era o lucro de uma vida e todo o trabalho pelo que haviam sofrido e trabalhado e que as chamas engoliam. Não havia pedido por uma ambulância porque se acreditara sem tempo. Estivesse acordado, Mick reclamaria por Lenny estar dirigindo. Estivesse acordado, Len jamais tocaria o volante. Mas Mick não estava acordado e não iria acordar e Len precisava dirigir – e, droga, dirija! Milagre terem chegado ao hospital inteiros. Milagre, também, Mick ter vivido para contar aquela história. E Leonard o deixou ir porque não suportava a ideia de não poder protege-lo; de ter que vê-lo morrer diante dos seus olhos, ao alcance das mãos, mas ainda assim tão longe.
Levou tempo para aceitar que tinha tanto medo de ferir-se como tinha medo de feri-lo.
Quando se aquietou com a situação teve de tomar coragem para encontra-lo de novo. Sabia que Mick não o culpava, mas isso não tornava as coisas mais simples. Havia essa sensação enredada no estômago que lembrava uma ânsia; um nervosismo mal dissimulado da culpa auto infligida.
— Vá vê-lo, Leonard. — Lisa só o chamava de Leonard quando a coisa era mesmo séria — Ele vai gostar de te ver.
A isso Leonard havia sorrido como quem duvida, mas as sobrancelhas da irmã o repreendiam e o desafiavam a dizer o contrário. Vencido, Leonard Snart fez as malas para o interior, sem saber que o destino tem seu próprio jeito de brincar com a vida das pessoas. Estava de passagem comprada quando a voz de Lewis Snart o assaltou no telefone:
— Ei, rapagão — O tom, o timbre, a voz que lhe embrulhava o estômago — Estava na cidade, então pensei: por que não ligar, não é? Não é isso o que quer dizer família?
Mas Lewis Snart não era sua família desde que Leonard se lembrava.
Seu pai, Lewis, havia sido um policial, mas havia sido há muito tempo. Isso antes de aceitar os subornos e as rondas ilícitas e cair nas graças da máfia e das famiglias. Só que era um criminoso de raia miúda, desleixado e arrogante, crente de ser melhor e mais esperto do que a polícia onde trabalhava. Apenas sua cegueira insolente não via que era o mais medíocre dentre os ladrões; que seus trabalhos e serviços eram desimportantes o bastante para não serem notados, indignos de confiança e desdenhados por qualquer outro que não ele. Não, não ele, ansioso como um cão atrás de um osso, mas nojento e pérfido como um rato. Nenhum dos figurões do crime o levava a sério, mesmo que fosse sempre bom ter um ou dois tiras no bolso.
Quando pego, Lewis deu nomes que ninguém rastreou. Falou de pessoas que nunca existiram. Dedurou colegas e ligações que ninguém se importou em checar. E, quando solto sem patente ou distintivo, procurou as famílias jurando não ter aberto o bico nem dito palavra. Um larápio mais inocente acreditaria. Não foi nem preciso forçar as condições de sua prisão: ele tinha o péssimo hábito de não ser bom em nada e de entrar em seu próprio caminho. O incumbiram do roubo de uma esmeralda tão grande quanto o punho de um homem e Lewis Snart foi pego em flagrante. Resistira à prisão. Ofendera os oficiais. Ficara preso cinco anos até sua soltura e o tempo que lá passara acabaram por transformar em escória o que já era um homem podre.
Virou um bêbado incorrigível. Para esquecer, ele dizia. Esquecer que tinha uma família inútil que o arrastava; três bocas para alimentar que nada faziam além de pedir, reclamar e cobrar. Deus, dia desses se tivesse uma arma ele faria por merecer esses anos na cadeia. E deixava isso claro todas as vezes que batia na esposa. Que porcaria de comida era aquela, afinal? Ele se matava nas ruas para conseguir pôr comida na mesa e, quando o fazia, ela cozinhava o regurgito de um gato? A puta precisava apanhar para saber que o lugar dela era com a barriga colada no forno ou as pernas abertas na cama. E batia nos menores pelos gritos, pelo choro. Até pelas risadas baixas que dessem enquanto ele próprio dormia. Esses diabos tinham que aprender a respeitar o santo sono de um homem. Lenny e a irmã iam dormir aos prantos com o lombo ardendo das varadas e do açoite. Certa vez passara as mãos de Leonard a ferro quanto o molequinho tentou pegar seu troco da venda. Um dólar e setenta, para um sorvete. Tinha que aprender a não foder com ele. E não era tudo uma lição agora? Batia neles para que aprendessem a calar a boca, para aprenderem respeito, para abaixarem a cabeça e aceitar.
Dia daqueles a mulher fugiu sem os filhos. Deixou-os para trás no desespero de ver-se livre do marido. Talvez tenha crido que ele a acusaria de sequestro, de leva-los contra sua vontade. Fosse como fosse, nunca voltou para busca-los nem nunca olhou para trás para lembrar-se de que tinha família.
Leonard cresceu sendo o escudo da irmã. A pequena Lisie, tanto tempo mais nova, fora a única alegria que seus pais o deixaram. Seu sorriso de menina e risinho cristalino eram doces como o orvalho e Leonard se embevecia deles para esquecer a vida miserável que tinha. Quando os tapas e o açoite eram demais durante o dia, Lenny se achegava a ela de noite e lhe contava estórias. De princesas e dragões e de finais felizes. Ela apertava a sua mão e beijava sua bochecha e, escondido no escuro, Leonard chorava quieto para não desperta-la.
Jurou protege-la. Durante todos os anos que cresceram com aquela pobre desculpa de pai, Leonard cumpriu sua promessa. Não deixava que o homem relasse nela suas mãos. Sempre que bebia e parecia que sua ira explodiria em um dos dois, Leonard fazia questão de ser este um. Sempre ao alcance de seus tapas e de seus socos e sempre distante de Lisie. O mais que podia, pedia para que ela ficasse em seu quarto e não tivesse que ver nada que não queria. Sendo boa menina, ela obedecia. Pedia que ficasse quietinha. Pedia que fosse boazinha. E Lisie era boazinha e quieta mesmo quando as vozes erguiam oitavas e coisas voavam pela casa. Não dizia palavra nem mesmo quando seu irmão voltava para o quarto tingido de roxo, vermelho e do evanescente amarelo de abrasões que não tinham tempo de curar antes de serem cobertas por outras novas.
— Diz logo o que quer e desliga.
— Vai com calma aí, rapaz. Não erga a voz para o seu pai.
Os dedos se juntaram na ponte do nariz. Uma dor de cabeça surda surgiu de lugar nenhum.
— Mas já que quer saber, talvez eu precise de ajuda num trabalho importante.
— Não.
— Eu não diria que você está em posição de recusar. Diga olá pra ele, querida.
— Lenny! — A voz de Lisie gritou ao telefone — Lenny, não faça nada do que ele pedir, eu vou ficar bem, Len- hmmph-
— Cale essa boca, acho que ele já entendeu — O sorriso palpável do outro lado da linha — Não é, Lenny? Vai querer ajudar seu velho pai?
Leonard não teve como dizer não. Teve, também, de ver o ônibus chegar e partir enquanto ficava com os pés presos na estação.

[ Bom gente, é isso. Fim do primeiro capítulo, BUT- tem mais. Bem mais. Mas queria saber aí a opinião de vocês, porque é :'3 ]
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